terça-feira, 11 de dezembro de 2012

CV:Impotência, desesperança e abandono da Embaixada em Lisboa


Liberal esteve no Bairro de Santa Filomena (II) 
De viva voz, nesta segunda parte da reportagem, dois moradores do bairro dão a cara ao Liberal e contam suas vidas duras de trabalho e sacrifício. Ao contrário da propaganda municipal, estas pessoas não são parasitas que pretendem tirar vantagem…
Jailson e o filho mais novo
Jailson e o filho mais novo



Praia, 11 dezembro 2012 – O frio agreste do inverno de Lisboa fustiga-nos o rosto e provoca-nos um estranho tremor quando, ávidos de conhecer a realidade por dentro, calcorreamos as ruas do bairro sob os murmúrios de “boa noite” que ecoam de figuras difusas acostadas a umbreiras de porta e espreitando das janelas. Não é todos os dias que Santa Filomena recebe a visita de estranhos, embora ultimamente a calmaria pardacenta do bairro tenha saltado para as páginas dos jornais ou suscitado a incursão de coletivos de cidadãos portugueses, solidários com os moradores.
RADIOGRAFIA DE UMA VILANIA
Como anteriormente se dizia, em peça aqui publicada ontem, o Bairro de Santa Filomena, essa pequena ilha cabo-verdiana da Amadora, está esventrado de desolação, entulho deixado ao abandono e, pior ainda, marejado de impotência e desesperança. Não é compreensível para os moradores – e muito menos para o repórter – a sanha destruidora de casas e o abandonar criminoso de pessoas que, por toda uma vida de trabalho, deram àquele país o melhor de si, calejando as mãos a construir cidades para os outros e limpando a porcaria de lares pequeno-burgueses da periferia, alancando ainda com desconsiderações de novos-ricos e pequenas perversidades de senhoras finas… Pagando impostos, votando nos canalhas que agora os despejam, mendigando empregos a troco de esmolas e ajudando a construir um país que nunca quis ser seu. E estão legalizados, ao contrário do que se diz. Aqui, a única clandestinidade é das autoridades cabo-verdianas…
Pelo meio, chafurdando no subsidiozinho, uma imensidão de pretinhos de serviço pululam pelas associações africanas, de costas voltadas para esta gente digna, sem ao menos esboçarem o mínimo gesto de solidariedade ou levantarem a voz contra a ignominiosa – e fascista – lei de imigração com que o Estado português pretende chutar a mão-de-obra barata de que já não necessita.
E, ali para os lados do Restelo (o bairro das embaixadas na capital portuguesa), uma embaixadora cabo-verdiana, paga pelo povo para defender os interesses dos nacionais, faz-se esquecida e, mais ainda, mente descaradamente, ao dizer que acompanha a situação, no meio do luxo, escrevendo poemas rascas, proferindo baboseiras e transformando a Embaixada numa espécie de sede local do partido no poder. D. Madalena Neves não é benquista em Santa Filomena, onde é acusada de nada fazer para apoiar os desalojados, como lhe competia, e pressionar as autoridades portuguesas, um atributo do seu cargo.
UMA VIDA DE TRABALHO ENTRE ESCOMBROS
Jailson Fonseca Amador espera ver chegada a hora de partir, arrasada a casa de três pisos que foi construindo com labuta intensa e onde abriu um pequeno café e um ginásio de manutenção (o único do bairro) de onde saíram nomes grandes do Kickboxing. Natural de São Vicente, foi para Portugal há 21 anos e reside desde essa altura no bairro.
Da construção civil a operador de máquinas numa fábrica de bolachas e pastelaria, de tudo um pouco fez Jailson do tempo que leva por terras lusas e onde, afirma, sempre pagou impostos, procedeu a descontos e liquidou despesas. Ao contrário do que se procura fazer passar (tantas vezes tendo como megafone da injúria vozes cabo-verdianas – o que é repugnante), este homem não é nenhum parasita que vive à custa do erário público. Aliás, cada vez menos essa ideia tem cultores. Os desalojados de Santa Filomena e os ainda residentes são trabalhadores e apenas alguns deles foram empurrados para o desemprego.
Desempregado há pouco mais de um ano, este filho de São Vicente interpôs, duas semanas antes da nossa ida ao bairro (ocorrida a 2 de dezembro), uma providência cautelar no Tribunal de Sintra, deduzindo ser por tal que ainda não lhe demoliram a habitação. Teve mais sorte que António, o nosso companheiro de conversas de ontem, a quem a câmara, alegando desconhecimento do procedimento legal, destruiu-lhe casa e recolheu haveres num armazém municipal.
Jailson diz-se vítima de uma confusão administrativa. As notificações do município para se encontrar uma solução (mesmo que transitória) para o seu caso, foram assinadas por alguém que utilizou abusivamente o seu nome. Uma técnica da câmara reconheceu ter havido falsificação de assinatura, mas, mesmo assim, isso não teve qualquer influência na avaliação da situação de Jailson: olho da rua!
ONDE PÁRA A EMBAIXADORA DE CABO VERDE?
De viva voz, Jailson Fonseca Amador é perentório em dizer que ao bairro nunca se deslocou qualquer funcionário da Embaixada de Cabo Verde e, muito menos, alguma vez viram por aquelas bandas a embaixadora Madalena Neves. Aliás, em abono da verdade, o único político cabo-verdiano que manifestou a sua solidariedade e, já por diversas vezes, ali se tem deslocado é o deputado nacional do MpD Emanuel Barbosa, eleito pelo círculo da Europa.
Mais dia, menos dia, Jailson será mais um despejado de Santa Filomena e não sabe para onde ir com a companheira e quatro filhos menores.
MÃE CORAGEM
Dulce Helena Fernandes, praiense de gema, está há menos tempo no bairro, apenas desde 2001, sendo à partida excluída do Plano Especial de Realojamento (PER). De qualquer modo, até pouco tempo atrás, quando a doença a tolheu de continuar a labuta, trabalhava incessantemente quinze horas por dia, seis dias por semana, na copa de uma pastelaria, o que lhe viria a estragar a saúde. Mas as cinco bocas que tem em casa justificavam o sacrifício, quatro filhos e um neto, este último com paralisia cerebral.
Em Cabo Verde, os médicos diziam nada haver para fazer com o miúdo (atualmente com 16 anos), confinado a uma cama e arrastando-se pelo chão. Chegado Portugal, o neto de Dulce, Wilson, já se transporta numa cadeira eléctrica oferecida pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que ele próprio conduz, num misto de alegria e excitação, e os técnicos de terapia da fala asseveram que poderá vir a falar.
Por absoluta entrega ao Neto e por amor aos quatro filhos (um deles com doença mental), Dulce Helena Fernandes fez-se à diáspora e os caminhos do mundo levaram-na a Santa Filomena onde encontrou um pedaço do seu Cabo Verde que, noite após noite, revive na enorme bandeira que lhe cobre uma parede do quarto.
Esta mãe coragem está desesperada, a qualquer momento espera-a, aos filhos e ao Neto, o mesmo destino de Jailson: a rua! Sem família na zona a quem possa acorrer, Dulce deita-se e levanta-se da cama, dia a dia, com o mesmo pesadelo real de sempre. No entanto, ainda não foi notificada pela Câmara Municipal da Amadora, porque a zona do bairro onde habita ainda não foi alvo de ações de demolição. Mesmo assim, mantém moderada esperança na carta que enviou às autoridades expondo a sua situação.
(continua)
Dulce e o neto
Dulce e o neto
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Notícia relacionada: http://liberal.sapo.cv/noticia.asp?idEdicao=64&id=37920&idSeccao=542&Action=noticia
http://liberal.sapo.cv/noticia.asp?idEdicao=64&id=37953&idSeccao=542&Action=noticia

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