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domingo, 2 de agosto de 2009

ENTREVISTA COM ISAURA GOMES

ISAURA GOMES EM ROTERDÃO-ENTREVISTA CONDUZIDA POR NORBERTO SILVA DA RÁDIO ATLÂNTICO
Rádio Atlântico - A presidente da edilidade mindelense está na Europa de férias, mas sabemos que tem aproveitado também para trabalhar em prol de Câmara que dirige. Pode fazer-nos um balanço dos contactos que tem feito?
Isaura Gomes -
Em primeiro lugar, muito obrigado pelo convite. devo dizer que é sempre um prazer falar com a nossa comunidade radicada na Holanda que adoro muito e disponibilizo-me por isso sempre para ter conversa onde posso falar do País, dos desafios, dos fracassos. Essa minha vinda a Europa é essencialmente férias, mas para mim é muito difícil estar 15 dias sem fazer nada; são hábitos de muitos anos de trabalho, mas também é uma oportunidade de maximizar, tendo em conta que nem sempre é tão fácil sair de Cabo Verde. Mas como eu disse, é essencialmente férias.
Passando por Lisboa, assinei dois protocolos: um com a Escola de Música de Linda Velha, em que um dos objectivos prende-se com a questão da formação. Nós, em Cabo Verde, gostamos de música. Toda a gente diz que toca, mas são poucos os que sabem ler a pauta. Então pensamos que é extremamente urgente que se invista de uma forma científica no ensino da música. A escola escolhida é uma escola que tem já uma tradição, meia dúzias de maestros. Ainda, relacionado com esse assunto, devo dizer que há um empresário que está disposto a instalar em Mindelo uma loja que vai vender todos os instrumentos musicais porque há uma carência sobretudo os que não conseguimos fabricar na Escola Baptista. Como temos uma tradição musical, as pessoas perguntam sempre onde há instrumentos musicais.
Em seguida passei pela Câmara de Oeiras que foi a primeira geminação que apareceu em Cabo Verde em 1988 e por isso é a Câmara que nos é muito querida por muitas razões.
Para já conseguimos manter uma relação de muita amizade não só com o Presidente Isaltino Morais mas com toda a equipa Camarária e sobretudo com todo o povo de Oeiras e com a nossa comunidade cabo-verdiana essencialmente oriunda de Santiago que vive em Oeiras e aproveitamos sempre para estar presentes em actividades com a juventude e terceira idade que reúnem mil e tal pessoas. Há um histórico muito grande com a Câmara de Oeiras e com a Comunidade cabo-verdiana aí residente.
Falando de trabalho, assinei com Câmara de Oeiras um protocolo para a criação de uma rede de Câmaras geminadas. A Câmara de Oeiras é geminada com muitas Câmaras nomeadamente Príncipe, de São Tomé, Saint Etienne e outras cidades estrangeiras e como também é geminada connosco nós vamos aproveitar também dessa rede.
Em Antuérpia fui ao casamento da minha sobrinha, filha do meu querido irmão Bonga. Devo dizer-lhe que é a primeira vez que fui a Antuérpia e que não senti magoada; habitualmente as lembranças do meu irmão me fazem sentir muitas saudades, mas desta vez era tanta a felicidade que vi estampada na cara da minha sobrinha que fui-me envolvendo também no ambiente, muita juventude e muita beleza e isso fez-me sentir bem. Como também estava com a minha família senti-me de facto muito bem e por isso quando cheguei à casa agradeci a Deus e falando com Deus eu disse-lhe ó senhor meu Deus se a alma do meu irmão e da minha mãe estiverem vivos de certeza estarão muito contentes porque de facto foi um momento de muita alegria e de muita felicidade.
Em seguida estive em Luxemburgo, numa visita já preparada por ser a primeira vez que estava com a nossa comunidade naquele País e, por isso, ainda em Cabo Verde falei com a nossa encarregada de negócios no reino do Luxemburgo a doutora Clara Delgado que me preparou uma visita curta só de dois dias. E tive um encontro com a comunidade, mas essencialmente com a sãovicentina porque. Foi num dia de semana.
Tive também um encontro com a Plataforma das ONG`S luxemburguesas que já tem assinado uma plataforma com as ONG`S cabo-verdianas.
Estive com o Presidente da Câmara de Ettelbruck a quem aproveitei para para convidar a visitar a cidade de Mindelo. O objectivo é o de estabelecer um protocolo de geminação e de cooperação que até pode ser também com a Câmara de Santa Catarina presidida pelo meu colega Francisco Tavares porque aí reside muita gente desse concelho; mas o mais importante é termos uma relação de cooperação. Foi uma conversa agradável porque tive o apoio não só da Dra. Clara mas também de uma jovem de origem cabo-verdiana que trabalha nessa Câmara Municipal que é natural de Santiago e que, de facto, é uma pessoa muito influente junto daquela Câmara Municipal. O presidente da Câmara aceitou visitar São Vicente.
Aproveitei para falar das nossas carências, sobretudo no âmbito de formação profissional porque em Cabo Verde estamos todos preocupados com o ensino universitário, mas esquecemos o ensino intermédio e, na minha opinião, temos que fazer uma inversão nesta materia. Falei também em outros aspectos. Porque não levar um grupo de homens de negócios daquela cidade para identificar eventuais áreas de investimentos.
Na Holanda estou numa visita privada e de família, onde tenho uma irmã que mora no sul da cidade mas é sempre uma oportunidade para estar com uma comunidade que eu gosto muito,mesmo estando de férias.
Tenho programado uma visita oficial a Roterdão para Novembro e já convidei o novo Burgomestre da cidade a visitar Mindelo quando tinha acabado de tomar posse e acredito que possivelmente no próximo ano o senhor presidente da câmara de Roterdão poderá estar em Cabo Verde.
O governo de Cabo Verde assinou um protocolo com a Câmara de Roterdão e nesse protocolo está focalizado que o mesmo deverá incidir essencialmente na cooperação descentralizada entre Praia, Roterdão e S. Vicente.
RA - Já vai no seu segundo mandato como presidente da Câmara de São Vicente. Que balanço pode fazer-nos neste momento em termos de realização e o que a faz sentir alguma mágoa por ainda não ter conseguido realizar?
IG – Bem, penso que o Norberto devia fazer essa pergunta primeiro aos nossos emigrantes que vão de férias porque são os melhores barómetros, porque têm sempre no horizonte o que encontram feito, o que tem sido feito. Eu devo dizer-lhe que tenho o sentido do dever cumprido e já o disse em várias ocasiões. E digo isso com muita humildade, sem nada de vaidades. O que nós fazemos está muito dependente de toda uma envolvência , de tudo o que nos rodeia e nem sempre o que queremos fazer depende de nós porque há factores exógenos que nós não conseguimos controlar. Todos nós sabemos que a temática dos recursos humanos é algo extremamente grave em Cabo Verde em geral e em São Vicente em particular.
No meu primeiro mandato apresentei uma taxa de cumprimento a volta de 80% o que é muito satisfatório. Naturalmente que ficaram os 20% para fazer e talvez tenha sido isso que me tenha levado a candidatar para um segundo mandato mas também porque quero fazer mais algum percentual e vou fazê-lo se Deus quiser.
Eu devo dizer-lhe que tenho mágoas e tenho algum desencanto. O meu maior desencanto é ver que, infelizmente, o governo que podia estabelecer com todas as câmaras uma relação de maior cumplicidade não o faz; há uma atitude e um tratamento discriminatório em função da cor politica da câmara, o que é extremamente grave;
Costumo dizer que um dos pontos fortes que temos em Cabo Verde é a coesão social, a coesão nacional e portanto, a meu ver, tudo aquilo que põe em causa essa coesão nacional é extremamente negativo. As pessoas vão se saturando, saturando e depois nunca se sabe qual poderão ser as reacções. Por isso compete a nós dirigentes políticos, actores políticos, agir com mais critério de justeza e de justiça para que as pessoas não atinjam esse grau de saturação.
Para falar concretamente de São Vicente, o meu maior “Hand cup” é presidir uma ilha em que entre o governo do MpD e do PAICV, a taxa do desemprego aumentou para 27 % e isto, de facto, é extremamente complicado e extremamente injusto para São Vicente que não foi considerado pelo governo actual como um pólo de desenvolvimento e como tal essa hipercentralização na cidade da praia que é a minha cidade capital que eu muito gosto.
Eu sou do tempo do meu partido em que Cabo Verde, numa primeira etapa, devia ter três grandes pólos de Desenvolvimento: Sal, Praia e S. Vicente. O desenvolvimento das outras ilhas chegaria através do efeito indutor que no nosso caso iam desenvolver também as ilhas de Santo Antão e S. Nicolau.
Portanto, uma das minhas mágoas tem a ver com o facto de não ter podido melhorar o emprego, mas como deve calcular o emprego é uma matéria estrutural que não depende de uma Câmara Municipal, tanto mais que o Primeiro Ministro JMN quando assumiu o Poder dizia que ia criar não sei quantos milhares de empregos. Não criou e se criou não chegaram a São Vicente; talvez em outras paragens mas creio que nessa materia o desempenho do governo foi pouco eficaz.
RA - Pela sua resposta pode deduzir-se que o seu relacionamento com o governo Central não é muito bom…
IG - Eu não chamo isso de relacionamento. O relacionamento institucional é positivo. É tão positivo que convido o Primeiro Ministro para presidir as festas do meu município…
RA - Acha então que por ser apoiada pelo MpD é discriminada?
IG - Eu não sou apoiada pelo MpD. Eu sou militante do MpD. Eu fui apoiada na primeira vez que me candidatei, mas na segunda já candidatei-me como militante do MpD. Eu sou membro da comissão politica do MpD. A minha Câmara é uma câmara ganha pelo MpD.
Sobre a discriminação, penso que existe e o sinal que me deram foi que o Primeiro Ministro mandou bloquear todos os investimentos externos sobre projectos que iam iniciar em São Vicente. Com o bloqueio feito pelo Primeiro Ministro os projectos não avançaram, com muita pena para São Vicente.
Neste momento o Primeiro Ministro diz que já desbloqueou; só que desbloqueou através de uma lei, cujo parecer que tenho, anticonstitucional e quando eu regressar irei falar com o meu partido para que essa matéria seja discutida a nível parlamentar porque é no Parlamento é que deve discutir sobre a sua constitucionalidade. Penso que é uma visão um pouco redutora do governo em relação ao País porque em democracia você não pode penalizar quem ganha, mesmo que não seja do teu partido. Senão, não valia a pena fazer eleições; era só chamar umas pessoas e nomear delegado do governo e já chegaria; em democracia todos nós sabemos que as regras do jogo são outras e é necessário um pouco mais de ética.
RÁDIO ATLÂNTICO

ENTREVISTA COM ISAURA GOMES

ISAURA GOMES EM ROTERDÃO -ENTREVISTA
A - Em Fevereiro de 2008 a senhora apelou ao Presidente da República a encontrar uma solução para a temática da gestão do solo em Cabo Verde. Qual foi a reacção do Presidente da República?
IG - Simplesmente não tive nenhuma resposta. Nem positiva, nem negativa. O Presidente da República limitou-se a não me responder, o que é pena…
RA - Muitos acham que Pedro Pires é refém do governo. Concorda com essa leitura?
IG:Eu não digo que seja refém do governo. Digo que ele é um presidente pouco actuante. Cabe a ele dizer se é refém ou não. Agora, o que posso dizer é que ele é um Presidente da República que usa muito mal o seu jogo de influência e o seu papel de árbitro. Eu acho que já tivemos em Cabo verde muitas situações em que o Presidente da República devia agir. Agora, concretamente, nessa questão de difamação que estou sendo vitima pelo sector do PAICV, uma cambada de fedelhos, malta muito imberbe na forma de fazer politica porque fazer política com insultos e difamação para mim não é a forma correcta de fazer politica. Por isso é que nunca respondo aos responsáveis do sector do PAICV em S. Vicente. Eu prefiro responder ao Zé Maria porque eu e ele é que somos colegas em matéria de capacidade política.
Mas retomando, acho que o Presidente da República devia ser um presidente mais actuante, e tem sido pouco actuante e eu nessa matéria em que a minha câmara é corrupta pedi a intervenção do senhor Procurador Geral da República e também do Presidente da República e devo dizer que passados uns quatro meses ele respondeu-me dizendo que sim recebeu a minha carta e que ia fazer o jogo de influência.
Penso que em política nem tudo pode servir. Na Política todos os meios não podem justificar os fins. No exercício da política, em Cabo Verde alguma coisa está mal e é por isso que a juventude e muitas pessoas que têm uma certa responsabilidade e seriedade não querem fazer política e, nesse caso, infelizmente a política está a ficar para pessoas que querem postos e que querem ter bons salários, quando eu considero a ciência politica uma das mais belas do mundo, uma ciência como outra qualquer como a medicina ou o direito, com regras de jogo muito claras. Mas, infelizmente, em Cabo Verde não é assim; há quem justifique isso com a juventude da nossa democracia, mas eu acho que não. Eu acho que na vida você tem que ter postura. Eu acho que a postura de correcção que devemos ter na nossa vida deve ser também induzida na nossa vida politica.
RA - O Presidente foi então pouco actuante….
IG - Eu ia dizendo que nessa matéria de denúncia ele informou-me que tinha actuado, mas quando o fez eu já tinha sentido a actuação porque a policia judiciária já estava no terreno devido às denúncias do PAICV, apresentadas ao tribunal. E nós também fizemos a nossa parte que foi publicar os editais de todo o meu mandato para que toda as pessoas interessadas pudessem consultar; aliás fazemos isso sempre. O Presidente da República quando me informou eu já tinha aberto as portas da Câmara para que a policia judiciaria pudesse entrar na Câmara. Simplesmente ainda não foram; criei até um gabinete mas eles preferem mandar convocar o pessoal da Câmara; quando convocam eu só dou despacho para se agir em conformidade.
RÁDIO ATLÂNTICO

ENTREVISTA COM ISAURA GOMES

ISAURA GOMES EM ENTREVISTA PARA RÁDIO ATLÂNTICO
RA - As denúncias têm feito manchete na imprensa cabo-verdiana com mais destaque no Jornal ASEMANA. Denúncias de eventuais casos de corrupção na câmara de São Vicente. Essas denúncias do PAICV - S. Vicente, correspondem à verdade? o que se passa afinal?
I.G - Vou lhe dizer o que se passa. Mas penso que quem vai justificar, responder e explicar isso convenientemente são os tribunais. Pessoalmente estou muito contente porque essa matéria está sendo investigada pela polícia judiciária. Aliás, quando escrevi a carta ao Presidente da República e ao Procurador Geral da República era precisamente para pôr as coisas no seu devido lugar. Porque quem declara as irregularidades, quem tem poder para declarar anomalias é a justiça. Agora eu devo dizer que a justiça cabo-verdiana funciona muito mal.
Uma das maiores crises desse governo é a crise no sector da justiça…
RA - Então faz parte dos que acreditam que a Justiça em cabo verde está inquinada, funcionando apenas em benefício do governo…
IG - Eu acho que a justiça está funcionando muito mal e tem dois pesos e dez medidas. E muitas dessas medidas devem estar do lado do governo. Sim a justiça está a funcionar muito mal e não sou eu só a dizer. Nos debates à volta da nação, está dito em todos os jornais; é consenso geral e é uma matéria que o Presidente da República devia intermediar; devia funcionar como árbitro, devia aconselhar.
O Cavaco faz isso em Portugal, outros presidentes fazem isso. Aconselham, alertam a magistratura, a Procuradoria, as polícias, as instituições da esfera da justiça para que de facto ela acompanhe o desenvolvimento. Querer um desenvolvimento com esse “handcup” na justiça é muito complicado.
RA - Neste momento decorrem investigações pela judiciária de S. Vicente, por instruções da Procuradoria-Geral da República…
IG - Sobre as denúncias que se fazem, deixo claro que se alguma pessoa na Câmara de São Vicente é corrupta - eu não posso estar sempre em cima a controlar os funcionários que eu tenho na câmara -, essa pessoa pagará como pagou a doutora Cláudia que foi a directora dos serviços ficais que de facto fez algo que eu não considero correcto e eu retirei-lhe a confiança politica. Ela já não é mais directora da fiscalidade porque ela de facto aproveitou do facto de ser directora de serviço para fazer influência. Não é bem tráfico de influências mas o abuso do poder ou da influência que ela tinha na Câmara. Ela, de facto, tinha sido reconduzida por mim porque tinha entrado no tempo do anterior presidente da Câmara, o presidente Faria. Entrou, penso, em 2001. E eu entrei na câmara em 2004; ela já era directora de fiscalidade. Eu apenas a reconduzi. Mas, neste momento, ela não vai mas assumir o cargo e corre um processo de inquérito que está pronto e vão me entregar quando eu chegar para ver se há matéria para instaurar um processo disciplinar. É para ir até às últimas consequências. Quando entrei na Câmara, fiz uma coisa muito interessante. Eu fiz um encontro com todos os meus colaboradores, chefes de secção e directores de serviço e disse-lhes claramente que eu jamais iria para nenhuma cadeia em Cabo Verde ou nesse mundo afora por minha culpa mas que se alguém fizesse qualquer acto, essas pessoas é que iriam; e que seria a primeira a denunciá-los. Portanto, todos deviam já estar vacinados, mas infelizmente o anticorpo não entrou e houve essa conduta da doutora Cláudia e ela foi penalizada. Se houver algum acto que me ultrapasse e que tenha a mesma semelhança eu vou agir da mesma forma. Agora, uma coisa é um acto de um funcionário e outra coisa é qualificar a câmara de corrupta.
Penso que o PAICV está numa manobra de diversão. Porque? Porque, de facto, a gestão de Felisberto Vieira é muito complicada, muito irregular e muito ilegal. O meu amigo e companheiro de partido Ulisses Correia e Silva já mandou fazer a auditoria. A auditoria já foi divulgada. O PAICV está numa manobra de diversão. Como os casos da Praia são casos flagrantes de gestão do Felisberto, eles estão fazendo a manobra de diversão. Vão distraindo a malta Em São Vicente para que a malta não acompanhe a questão.
Para além disso, há também um ataque a minha pessoa porque o PAICV sabe que em São Vicente ninguém me ganha. Se eu voltar outra vez volto a ganhar como presidente da câmara. E eles com medo que eu venha outra vez, e agora então que já disponibilizei-me como potencial candidato para as próximas presidenciais da república no caso do meu partido achar conveniente, eles têm como objectivo, tentar atingir a minha imagem mas isso é impossível.
RA - Pensa que vão conseguir?
IG – Não. Eles não conseguem. Eu já lhes disse que estou na política desde 1968. Não é por acaso que sou combatente da Liberdade da Pátria. Eu fiz política nos momentos mais difíceis. No tempo da PIDE, nos momentos de regime de partido único e se eu consegui sobreviver ao regime do partido único depois de ter saído do partido em 1981 e aguentei até 89 é porque vou conseguir aguentar aos ataques dessa gente do PAICV local.
RA - Emitiu um comunicado, em Junho, em que dizia o seguinte: “espero que todas as outras denúncias feitas há anos, de carácter nacional, de entre os cometidos por anteriores gestores da CABO VERDE INVESTIMENTOS na venda de milhares e milhares de metros quadrados de terrenos, ou oferecidos aos amigos ou simpatizantes do PAICV, sem o dinheiro ter entrado nos cofres do Estado, sejam objecto de investigações próximas, como forma de responsabilizar os gestores da CABO VERDE INVESTIMENTOS ou os responsáveis superiores de que depende e canalizar para os cofre do ESTADO, os milhões de contos que nele deviam ter dado entrada, o que muito jeito daria não só ao ESTADO como aos MUNICÍPIOS, principalmente neste momento difícil de crise”. Na sua opinião, todas as denúncias veiculadas no famoso email correspondem a verdade?
IG: Já agora vou lhe dar uma notícia em primeira mão. Eu estou a concertar com o meu advogado no sentido de levar o governo ao tribunal, precisamente porque o governo não está a cumprir os seus compromissos com as Câmaras. Porque nas vendas das ZDTIs temos direito, no grosso, a 24,25%. Ou seja, para cada 100 escudos da venda de terrenos, temos direito a quase 25 escudos. E isso nunca aconteceu. E informação de gente responsável, nomeadamente numa delegação com o director geral do património, a dizer que o dinheiro dos terrenos vendidos como ZDTis não entrou no Tesouro. Acho que isso é uma situação muito grave porque é gente responsável que esteve na Cabo Verde Investimentos e que está a lesar os interesses do Estado. Porque você não pode estar a vender mil e tal hectares (10mil metros quadros) que foi vendido ao pessoal do Dubai sem que o dinheiro entre nos cofres do Estado. Em São Vicente deram ao filho do Nelson Atanásio que é um grande militante do PAICV, há quem diga mesmo que ele vai ser o próximo candidato do PAICV à Câmara Municipal de São Vicente e agora deve apanhar com as suas próprias mãos se for lá (risos), deram-lhe uma ZDTis de 90 hectares…
RA - Deram a quem?
IG - A Carlos Santos. 90 vezes 10 mil dá 900 mil metros quadrados e não pagou nada. Ao Belarmino Lucas deram também uma ZDTis na Baía das Gatas. Ao Almada também deram e o dinheiro não entrou na Câmara porque se esse dinheiro tivesse entrado nas Câmaras Municipais… estou a falar da minha realidade, mas há outras ZDTIS em outras paragens…, eu teria aproximadamente milhões de contos. Com esses milhões de contos ia desenvolver São Vicente, criaria mais postos de trabalho.
É uma matéria que eu vou…, já disse, tenho cá os documentos com todas essas áreas que eu vos posso dar uma cópia com todas essas áreas já vendidas e o dinheiro não entrou. Isso é um negócio do Ti Lobo e do Xibinho porque não é muito normal. Alguma coisa está-se a passar. Quando não se toma dinheiro em cima da mesa, toma-se debaixo da mesa o que é muito grave.
RA - Queria aproveitar para perguntar-lhe para quando a entrada em funcionamento do aeroporto internacional de São Vicente. Há alguma data oficial? Pois já foram avançadas várias datas e até esta nada….
IG – Bem, eu não sei o que se passa com o aeroporto. Mas uma coisa eu sei é que as pessoas não devem avançar sem se ter o certificado. Como já disse anteriormente, eu não posso convidar uma pessoa para ir a um baile se eu não tenho sala de baile preparada. É aconteceu como os voos daqui da Europa, nomeadamente da Holanda. Mas eu já sabia. Era só conversa de rua. Penso também que a TACV sabia por meio da ASA que o aeroporto não ia estar aberto. Eu acho que isso só serve para desestabilizar mais a empresa e o País porque isso não só aconteceu na Holanda como aconteceu também na Madeira. Eu recebi os agentes promocionais e participei na programação da visita a São Vicente e a Sto Antão e não queira saber o pandemónio que foi na Madeira porque as pessoas já tinham feito uma promoção nos hotéis a vender todo o Cabo Verde e afinal nada. Eu penso que nessa matéria temos é que aguardar e penso que a ASA através do seu presidente vai esperar até ter o certificado de controle de qualidade na mão para avançar uma data.
RA - Tem feito algum contacto com a ASA para desbloquear a situação do aeroporto de São Vicente?
IG - Eu tenho falado com o Dr. Paixão e ele me informou que estão a espera do certificado e quando tivessem em mão, irão fazer o anúncio oficial. Quem fez mal foi a TACV. Eu acho que a direcção comercial da empresa não pode estar a vender a viagem se o aeroporto não está ainda certificado. Eu acho isso uma imaturidade total e uma falta de respeito e de responsabilidade.
RÁDIO ATLÂNTICO

ENTREVISTA COM ISAURA GOMES

A AUTARCA DE S.VICENTE ENTREVISTADA PELA RÁDIO ATLÂNTICO NA HOLANDA

RA - Ainda sobre a Câmara que dirige. Em São Vicente está coligada com a UCID. Como tem sido a vossa relação? E já agora também com o PAICV?
IG - A relação é muito boa. Na partilha de pelouros numa primeira fase só a UCID foi contemplada e não atribuí vereadores ao PAICV pelas seguintes razões: eu disse ao PAICV que só lhes daria pelouros se apresentassem desculpas públicas por todas as difamações que fizeram durante a campanha… Eu tenho também uns quatro a seis processos a decorrem nos tribunais contra os responsáveis do PAICV, entre os quais dois processos contra Antero Coelho que é um vereador do PAICV. E, uma das razões, foi quando, uma vez que vim em missão de serviço a Holanda, alojei-me no Hotel Hilton. Quando eu cheguei a S. Vicente encontro um artigo online onde ele dizia que a minha inteligência está no sítio onde as outras pessoas tem o sexo. Não posso permitir isso. Essa pessoa não tem nível para ser vereador, não tem nível para fazer parte da minha equipa de trabalho. Este processo está a decorrer no tribunal e tenho um outro contra ele. Tenho outro também contra a Dra. Vanda por difamação na campanha. Outro contra o João do Carmo.
Agora, o que acontece é que o tribunal não funciona e depois vem no fim do ano o Presidente da República dar amnistia desses casos de ofensa e ficamos num sentido de impunidade.
Esqueci também de dizer que nas últimas campanhas autárquicas eu disse publicamente que eu ganhando ia mandar fazer uma auditoria externa para provarem se havia ou não corrupção. E essa auditoria está também a decorrer. Está a auditoria da policia judiciária e eu penso que essas coisas devem ser céleres. Devemos trabalhar como os americanos fizeram com o caso Madoff que o processo foi muito célere o Madoff já está preso. Eu penso que nessas situações a justiça deve funcionar e não ficar a arrastar, arrastar até parece que estão a fazer algum jeito a quem está a fazer a campanha difamatória.
RA - A UCID está em congresso em São Vicente. Tem alguma mensagem para enviar a UCID?
IG - Por acaso não sabia que a UCID estava em congresso mas isso é porque estou de férias e não tenho lido as notícias. Férias são férias. Se soubesse teria enviado algo por escrito mas aproveito essa oportunidade em primeiro lugar para comunicar o meu grau de satisfação porque pelo menos até que enfim a UCID já conseguiu marcar esse congresso que estava sendo arrastado e com alguma controvérsia entre a UCID da Praia e a de São Vicente e ao meu ver não pode haver duas UCIDs.
Se estão em congresso estão de parabéns e é sinal que já chegaram a algum entendimento. Eu quero é esperar que do congresso saiam as melhores recomendações não só para a reorganização interna do partido mas também que saiam recomendações que visem maximizar todo o engajamento da UCID no desenvolvimento de Cabo Verde. A UCID está a desempenhar o seu papel. Eu sou muito democrática e acho que Cabo Verde ainda tem lugar para mais um partido político. Se não tivesse no MpD era capaz de criar um novo partido mas o MpD dá-me felicidades portanto eu estou bem.
Eu penso que a UCID dentro do possível está a desempenhar um papel muito positivo em cabo verde na pessoa do seu presidente que também é vereador da câmara de São Vicente e que é um colaborador muito directo e que é uma pessoa muito capaz e tem por isso desempenhado um papel muito importante não só para São Vicente mas também para todo o Cabo Verde. No parlamento, por exemplo, o António Monteiro é um deputado muito interventivo. É pena que são apenas dois deputados. É o que tenho a dizer neste momento.
RA - Disse que está contente por estar no MpD que neste momento tem três candidatos à corrida pela liderança. Já se posicionou a favor de algum candidato?
IG - Eu não devo posicionar-me por uma razão muito simples. Eu sou membro da comissão política. Eu respeito todos os candidatos porque eles estão exercendo um dever cívico, um dever patriótico e um dever que a constituição lhes assiste, são todos militantes do partido. O que eu posso avançar, independentemente de ter o meu candidato que é uma questão muito intima, que eu me reservo na qualidade de membro da comissão politica, quero dizer que a pessoa que ganhar iremos estar todos juntos para vencer o PAICV em 2011 que é o nosso objectivo.
RA - Alguns analistas próximos do MpD e até alguma imprensa avançam que o MpD no fim vai apresentar um único candidato. Pensa de igual modo? Tem essa esperança?
IG - Eu não tenho essa esperança e nem quero ter. Eu sou muito democrata. Eu acho que disputas políticas não fazem mal a ninguém. Eu acho que se o PAICV que não é um partido democrata vai a disputa politica eu não sei porque é que nós do MpD vamos para o consenso. Algumas pessoas andam a falar em consenso em matéria do partido. Eu não sei o que é isso. Eu acho que as candidaturas, as disputas são formas de aprendizagem politica. De certeza que se o Veiga apresentar uma boa moção de estratégia, Jorge Santos apresentar a dele, o Livramento apresentar a dele, eu penso que dessa discussão vai sair um líder mais forte porque vai sair um vencedor que vai aproveitar as coisas boas da moção de estratégia dos outros. Eu pessoalmente eu acho que todos deviam ir até ao fim porque seria um bom momento para o MpD revitalizar não só em questões políticas como também de grandes temáticas e de grandes matérias que nós temos para discutir a bem de Cabo Verde.
RA - Sobre as presidenciais. Em entrevista dada a órgãos de comunicação social no país disse que estaria disposta a candidatar-se a Presidência da República. Essa hipótese ainda está de pé?
IG - Eu posicionei-me sobre essa matéria numa conferência de imprensa que é coisa de muita seriedade pois quando a pessoa dá conferência de imprensa é porque a matéria é de seriedade.
Eu manifestei disponibilidade quando eu vi que o meu candidato que era Carlos Veiga desistiu da corrida. Ele já veio publicamente dizer que não é candidato ás próximas presidenciais. Estando Veiga retirado da corrida eu acho que tenho perfil e tenho toda a motivação, capacidade para exercer esse mais alto cargo da nação. Mas eu devo dizer que eu manifestei a minha disponibilidade mas se o meu partido me apresentar um candidato com melhor perfil de certeza que irei fazer campanha a favor desse candidato.
RA - No portal da Câmara de Oeiras (jan/fev 08) pude ver um extracto de uma entrevista sua dizendo o seguinte “A minha sociedade é extremamente machista mas a vida já me ensinou que as pessoas se impõem pela competência. A carreira profissional que eu trilhei leva a que acreditem no meu perfil. Felizmente eu tenho um grande poder de encaixe e quando se tem o sentido do dever cumprido podem vir todos os atropelos, constrangimentos que nada nos demove”. A Politica cabo-verdiana é um feudo para homens? O que as mulheres têm que fazer para reverter a situação?
IG - Não, não é um feudo. A nossa sociedade é machista e dificilmente vai ultrapassar essa fase que é muito também uma questão cultural. Como sabe isso vem desde a educação que nós os pais as vezes sem querer incutimos na educação dos filhos, mas isso são questões que vão mudar com as gerações futuras.
Quando digo que esse machismo tem uma implicância tem sobretudo a ver com a forma de se fazer politica em Cabo Verde. Quando uma mulher está na cena politica, a vida íntima da mulher é despida, enquanto que um homem na política a vida dele já não é despida. Em nenhum momento, por exemplo, um homem é questionado na cena politica por ter três ou quatro namoradas ou por ser casado e ter uma amante. Uma mulher, como eu que sou solteira e que não tenho um homem, se arranjo um namorado que eu gosto, eu gosto de homens e acho que uma mulher que não gosta de homens é muito mau sinal; eu sou uma mulher que vive a paixão; sou uma mulher que gosta de amar; eu amo as coisas, tudo que faço na vida é com paixão, não sou uma mulher monótona numa relação, e quando tenho uma relação que não me serve eu tenho que abrir o meu coração para encontrar relação que me dá felicidade porque eu acho que todos nós andamos a procura da felicidade, isso é muito mal visto por alguns. Um Homem pode ser casado, pode ter amantes, pode ter quatro mulheres e nunca isso é matéria de campanha isso é só para dizer que isso é um dos máximos do machismo porque isso reflecte um tratamento discriminatório, uma falta de civismo porque na politica a vida particular de cada pessoa não deve estar em causa. Na política devemos discutir capacidades, competências, ideias e projectos e não estar a imiscuir-se na vida particular das pessoas. Mas já estou habituada a isso e é por isso que as pessoas dizem que sou uma pessoa muito especial. Eu sou uma pessoa muito assumida porque a vida já me ensinou muito e não tive só bons momentos, tive também momentos duros e ainda bem porque esses momentos duros ajudam-nos a temperar e a ser melhor, mas também ajudam-nos a ser mais tolerantes. Eu sou uma pessoa muito tolerante...
RA- O que as mulheres cabo-verdianas podem fazer para inverter esse quadro?
IG - Eu acho que as mulheres devem ter a minha postura. As mulheres devem ter a coragem para distinguir a vida privada, da vida profissional, capacidade e competência. As mulheres devem entrar mais na política. Dizer que em Cabo Verde temos mulheres competentes basta ver o número de mulheres que está no governo. Não é candidatura porque elas são nomeadas, de qualquer modo são mulheres corajosas. Eu tenho essa coragem desde 1975 em que fui a primeira mulher deputada. Eu tenho sido sempre a primeira mulher em tudo. Primeira mulher deputada, primeira mulher autarca, e se Deus quiser, se o meu partido achar conveniente, a primeira mulher Presidente da República.
Isso para também dizer que nós as mulheres podemos fazer politica com mais amor, com mais ternura, com mais carinho e até com mais respeito, com mais classe e com mais performance.
Eu dou muito de mim para as outras pessoas. Eu considero que estou na política para cumprir uma grande missão que é servir aos outros e não me servir da política.
RA - Como classifica a actual governação de José Maria Neves? De 1 a 10 que nota lhe daria?
IG:Bem, não é fácil. Este segundo mandato tem sido um desastre. O governo é fraco, reconhecido até pelo Primeiro Ministro. Eu já pedi, publicamente, a cabeça das ministras de economia, das finanças devido ao assuntos das ZDTis. O que está a passar-se na Cabo Verde Investimentos, em outras paragens as cabeças já tinha rolado. Mas em Cabo Verde as pessoas nunca põem o cargo a disposição. Recentemente a tomada de posição da ministra ao dizer que se as Câmaras não pagassem a iluminação pública que as cidades iam ter apagões isso é de uma irresponsabilidade total. Eu posicionei-me sobre isso dizendo que de facto é uma matéria que tem que ser bem gerida. Estou de acordo que as Câmaras devem pagar a utilização da energia pública, mas que também a Electra deve pagar pela utilização do espaço e do solo que eles ocupam e não uma postura de quem paga é sempre a Câmara e os munícipes enquanto que o Estado e a Electra ficam de fora.
A ministra Fialho ao dizer que se não pagar a luz é cortada é uma chantagem e uma irresponsabilidade grande e eu até comentei que disse apaguem a luz que ela seria a primeira a apanhar “Kaço Bodi” na Praia (risos).
RA - Insisto na nota que atribuía ao governo…
IG - No primeiro mandato eu daria uma nota de 5,5 e neste segundo mandato a nota é claramente negativa é já vai para os 4 valores.

RA-Obrigado pela disponibilidade
IG-Eu é que agradeço por esta oportunidade em falar para a nossa comunidade
RÁDIO ATLÂNTICO