Dez anos depois, o ex- -primeiro-ministro de Cabo Verde quer regressar. Na manga, a experiência de dois mandatos e a frescura de outra década retirado da políticaFoi primeiro-ministro de Cabo Verde entre Abril de 1991 e Julho de 2000. O desgaste natural da criatividade e do ânimo fizeram-no repensar a vida e fazer uma pausa na carreira política. Regressa agora, dez anos depois, ao cargo que abandonou para "dar lugar a outras pessoas".
Nasceu no Mindelo, uma das cidades mais desenvolvidas. Como vê esse de-senvolvimento num arquipélago com tantas diferenças?
O Mindelo é uma cidade desenvolvida mas também uma das mais paradas e das menos atractivas. Todo o potencial que a ilha tem - um potencial bastante grande - tem sido desaproveitado. Mas todo o arquipélago está numa situação que não é boa. Precisa de mudar, claramente.
Em que sectores?
Tanto em termos macroeconómicos como em termos sociais e económicos. Temos desequilíbrios grandes: um défice de mais de 15%, um endividamento que, incluindo a dívida contingente, vai quase em 100% do PIB, e um crescimento anémico da economia. Tudo isso faz com que o desemprego aumente de forma muito intensa. As políticas não têm feito crescer a economia nem gerado empregos.
Isso tem a ver com a actividade exterior?
Não tanto. Claro que a crise também afecta Cabo Verde, mas não fizemos o trabalho de casa na altura devida, não aproveitámos as oportunidades que surgiram, porque as políticas adoptadas são políticas erradas, que não fazem crescer a economia nem geram emprego.
Quais são os principais problemas e dificuldades?
A nossa prioridade é a luta contra o desemprego. Afecta uma enorme quantidade de pessoas e entre os jovens atinge uma expressão dramática. São necessárias políticas a médio prazo que possam gerar empregos de qualidade e também políticas de curto prazo que permitam atenuar o problema rapidamente. É preciso criar um quadro favorável ao investimento, sobretudo estrangeiro.
De que maneira?
Queremos fazer uma política diferente: que atraia o investimento para produzirmos serviços mas também alguns bens, por exemplo nas áreas das pescas e da indústria, em que é possível produzir para exportar. Mas sobretudo serviços. Acreditamos que desta forma será possível fazer a economia crescer. Nos últimos cinco anos do nosso governo crescemos 5,4% em média. Achamos que é possível fazê -lo de novo. Ou até crescer a níveis mais elevados para gerar emprego.
O seu partido tem sido acusado de se afastar das empresas portuguesas. Como vê essas acusações?
Isso não é verdade, não foi nem será. Em 2001 perdemos as eleições por termos sido acusados pelo governo actual de estarmos a vender o país aos portugueses. Passou essa mensagem: eles eram o amor à terra, nós éramos os vendedores da terra. Acho que é de uma hipocrisia muito grande o governo estar agora a tentar passar a imagem de que somos contra as empresas portuguesas. Fomos nós, enquanto governo, a criar parcerias na banca [Caixa Geral de Depósitos e Montepio], com a Portugal Telecom nas telecomunicações e na energia com a EDP e a ADP. O governo actual de Cabo Verde expulsou a EDP e a ADP. A decisão teve resultados péssimos: temos cinco dias por mês de apagões, não há capacidade para financiar o fornecimento de combustível nem para os investimentos. O que criticamos no governo de Cabo Verde é a falta de transparência e o facto de não ter sabido negociar as condições das linhas de crédito. 80% dos bens e serviços são importados. No futuro também não será assim porque acreditamos na parceria estratégica com Portugal. O nosso programa eleitoral prevê aprofundar essa parceria estratégica.
Mas Portugal não parece estar em situação privilegiada...
Não me quero pronunciar sobre a situação portuguesa. Essa situação preocupa-nos porque temos uma ligação muito forte a Portugal. Desejamos que Portugal consiga ultrapassar as dificuldades, para bem do povo português e para nosso bem, de uma forma relativamente egoísta. Portugal estar bem é bom sinal para nós. Estamos preocupados sobretudo porque consideramos que os sinais que indicam a crise também estão em Cabo Verde.
Foi político até 2001. A que se deveu o afastamento e a que se deve o regresso?
Sou sempre a favor da renovação. Em democracia é preciso que as pessoas se renovem. Na política há cargos que não devem ser mantidos por muito tempo. Após dois mandatos, achei que era altura de dar lugar a outras pessoas. Porque um país precisa de renovação, de criatividade, de ideias, de ânimo. E quem é primeiro-ministro há dez anos acaba por se sentir peado por um conjunto de relações e de rotinas que já não permitem essa energia. Eu vi isso em vários primeiros- -ministros e senti-o na pele.
É isso que se passa com este governo?
Há sinais bastante claros de que se passa o mesmo. Dez anos depois, vejo o país caminhar num sentido prejudicial - um plano inclinado descendente que é preciso inverter. A inversão só é possível com uma mudança de política, uma mudança de governo. Foi isso que me levou a regressar.
http://www.ionline.pt/conteudo/92288-carlos-veiga-quem-e-primeiro-ministro-ha-dez-anos-acaba-se-sentir-peado-rotinas

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