sábado, 22 de dezembro de 2012

CV:“Vivemos numa ditadura do ateísmo”


Dom Paulino Évora, Bispo Emérito de Santiago, comemorou recentemente 50 anos de sacerdócio, foi ordenado no dia 16 de Dezembro de 1962. Seguiram-se trabalhos em Portugal, onde foi Vice-Director e professor no Seminário de Fraião [Braga], e em Angola [onde esteve em Duque de Bragança, actual Calandula, e em Cacuso, ambas na Diocese de Malange]. A 21 de Abril de 1975 é elei¬to Bispo de Cabo Verde e toma posse a 22 de Junho do mesmo ano. Meio século de uma vida dedicada à Igreja, agora revisitada nesta entrevista exclusiva ao Expresso das Ilhas.

Expresso das Ilhas - Comemorou há poucos dias os 50 anos de sacerdócio. Recuando um pouco mais do que esse meio século, quando é que sentiu a chamada para a vida religiosa?
Dom Paulino Évora - Direi que foi um ano e meio antes. Nós, os jovens que frequentávamos a Igreja, não éramos muitos e fomos vendo os sacerdotes, que eram poucos e vinham de longe para trabalhar, e dizendo que éramos também capazes de sermos sacerdotes. O nosso grupo continuou as suas reflexões e em Julho, Agosto de 48, passou pela Praia um rapaz do Maio que ia para o seminário. Foi na altura em que dissemos que era chegada a hora de fazer alguma coisa. Reunimo-nos e reflectimos sobre qual de nós devia ir. E apontaram para mim. Não era o melhor do grupo mas lá fui dizer ao Pároco que queria ir para o Seminário. Pensei que fosse logo, mas ainda fiquei à espera durante um ano. Durante esse ano ele foi, com certeza, observando-me melhor. Em 1949, lembro-me que me fui confessar e ele perguntou-me se ainda continuava a pensar em seguir o sacerdócio. Disse-lhe que sim e ele respondeu-me que tinha de começar então a ter explicações de matemática e de português com o padre Figueira. E um certo dia fui chamado e disseram-me que embarcava nesse dia.
E foi uma decisão fácil entregar-se assim à causa religiosa?
Então, se os outros já estavam aqui ... Se já dávamos a nossa contribuição como cristãos, essa componente leva também a comunicar. Já sabíamos o que faziam os padres. Já conhecia a sua entrega.
Foi um espírito de missão desde o início?
Com certeza. Tínhamos a consciência do sacrifício que os sacerdotes faziam e a entrega que isso significava. Portanto, sabíamos que comportava sacrifícios mas também alegrias.
Antes de vir para Cabo Verde, trabalha em Portugal e em Angola, podemos dizer que uma parte de si ficou nesses países?
Ficou. Isso é que ficou. Em Portugal vivi 16 anos. Fui para lá com 18 anos e marcou-me. E o trabalho em Angola ainda mais. Quando estava no seminário pedi outra missão e quando pensava que iam mandar-me para Cabo Verde mandaram-me para Angola. E ainda bem. Foi uma experiência que marcou a minha vida. Ainda hoje, das mais de cem aldeias que visitava durante um ano ainda me recordo de metade delas. Era um território quatro vezes maior do que Cabo Verde e nós éramos só dois. Isso exigia que arregaçássemos as mangas mesmo até cá acima. E foram dez anos belíssimos de missão. Onde aprendi muito com as pessoas. Onde vivi as suas realidades. E ainda hoje sigo as realidades em ambos os países. Apesar de também seguir tudo o resto porque somos cidadãos do mundo e, no fundo, hoje o mundo é também uma aldeia.

                              O período Revolucionário

Está em Angola quando se dá o 25 de Abril. Ficou com a sensação, na altura, que seria uma questão de tempo até regressar a Cabo Verde?
Quando se dá o 25 de Abril não pensei logo que iria voltar. Se não tivesse sido nomeado Bispo não iria pedir para voltar, apesar de alguns missionários, devido ao ambiente que se vivia, o terem feito e terem saído do país. Porque houve, de facto, situações complicadas, e eu vivi-as.
Que género de situações?
O país ficou muito tenso para os missionários. Impraticável quase. E quando vim embora, muitos sacerdotes e religiosas me perguntaram se deviam ficar ou ir embora. A minha resposta foi sempre que cada qual devia seguir a inspiração do espírito. E nunca pensei que o 25 de Abril trouxesse isso, sinceramente. Porque aconteceu que muitos bispos, que estavam em Angola e Moçambique, pediram resignação.
Chegou a temer pela própria vida?
Quando estamos nesses locais é para o que der e vier. E sim, tive medo algumas vezes. Deitei-me mais do que uma vez vestido e calçado. Para se acontecesse alguma coisa me limitar a pegar na chave do carro e tentar sair. Por uma vez ou outra foram pessoas lá a casa e eu notava que havia ambiente de ameaça. Já depois, quando me preparava para regressar a Cabo Verde, fui ainda a Benguela visitar os conterrâneos e pelo caminho tive bastante medo, porque fui parado muitas vezes. E a saída de Benguela foi feita debaixo de tiros. Era um ambiente de muita instabilidade. Mas a gente, como sabe, tem um anjo da guarda e continua a andar no terreno porque a missão assim o exige. Nunca deixei de visitar as aldeias. Essa era a nossa obrigação. Temíamos também pelas irmãs, por causa do que tinha acontecido no Congo. Pedimos protecção para elas. E sabotaram as portas das escolas, partiram vidros das janelas da residência. Mas mantivemo-nos calmos até ao fim. Já depois de eu ter saído, a missão foi bastante martirizada. Mas é assim. O tempo de revolução é sempre tempo de insensatez.
Em 1975 é eleito Bispo de Cabo Verde. Ainda se lembra das emoções que viveu nessa altura?
Naturalmente que pensamos que nos deitaram o mundo em cima da cabeça. Perdemos a respiração, olhamos para quem nos deu a notícia, a pensar se estará a brincar ou a falar a sério. Foi um momento muito complicado quando Dom Muaka me chamou [Dom André Muaka, antigo Bispo de Luanda]. Quase não sabia onde estava. Fui pensar, consultei o meu confessor e acabei por aceitar. É um momento muito complicado. Ficamos confusos. Mas quando nos refazemos, dizemos sempre que uma missão é uma missão. Já sabia que não seria fácil.

                  As relações da Igreja com o Estado totalitário

Chega a Cabo Verde na altura da independência. Logo a seguir o país entra num regime de partido único. Esperava que isso pudesse acontecer?
Portugal também estava com interesse que fosse uma coisa única, porque em Angola também entregaram o poder ao MPLA, não há dúvidas disso. Havia a intenção clara de entregar o poder ao MPLA, ao PAIGC, à FRETILIN, à FRELIMO. Aliás, os pequenos grupos que havia em Cabo Verde, como a UPIC, foram arrestados. Bom, são aquelas farsas e aquelas ratoeiras que se fazem, porque foram acusados de estarem a estragar o proces¬so. (silêncio) Embora alguns defendam que os inícios devem ser assim, isso de princípio traz logo uma nota de ditadura. E quando as coisas começam assim, não dão resultado. Em nenhum sítio. Até porque tinham estado a combater contra a ditadura e quando chegam iniciam também uma ditadura. Há aqui uma contradição. Um partido único é sempre uma forma muito caricata de fazer o progresso. Porque não prima, nem privilegia, nem respeita a liberdade. Não é um meio para conduzir uma sociedade. A democracia também traz pro¬blemas, mas pelo menos tira-se a tinta da ditadura e da coerção da liberdade do indivíduo.
Como foram as relações da Igreja Católica com um estado totalitário de inspiração socialista?
Já tinha consciência que era isso que ia encontrar. Uma vez que tive como meu lema que fui mandado para dar a notícia da libertação de Jesus Cristo ["N mandado da nhos um noba di Deus djunto ku notícia di libertação"], nós sabemos que a verdade incomoda. A mensagem que passei é que era preciso viver dentro da sinceridade e da coerência da missão. Não ia estar a esconder a verdade por medo, porque sabia que iria pagar por isso diante de Deus. Portanto, sempre falei da verdade do Evangelho e do respeito pela pessoa humana, num ambiente que, enfim, não tinha interesse em ouvir isso e que ficava incomodado por isso. Tínhamos de navegar num meio confuso, mas com o Evangelho nas mãos e sabendo que vínhamos servir Jesus Cristo. Por isso a palavra ‘receio' não estava no meu dicionário.
O lema que escolheu sempre foi visto como uma mensagem libertadora. Havia aqui também um lado político? Uma defesa da democracia?
Não. Havia simplesmente o lado evangélico. Porque, no fundo, todos os que chegaram vieram como libertadores. E será verdade que eram mesmo libertadores? E eu mostrei quem era o libertador. Não era eu, era a verdade de Cristo. A frase tinha, portanto, apenas um cunho da evangelização, porque a evangelização é uma libertação, para o homem estar livre e poder amar, agir e aquilo que a sua fé lhe diz.
Mas as revoluções também não são feitas para libertar?
Será? O problema é esse. Vemos a história e descobrimos que essa palavra não lhes assenta. Eu só quis mostrar onde estava a libertação e que não eram eles que a traziam. Ou seja, mostrei também a falsidade e a falta de bases de certos conceitos. Porque se libertou com violência, ou a ditadura não é também uma forma de violência? Em resumo, não tive qualquer objectivo político. Isso até poderá ter sido interpretado dessa maneira, mas aí o problema já não é meu.
A liberdade não começou, no seu entender, em 1975?
Não houve libertadores nem liberdade para os homens. Pelo contrário, estes foram mais escravizados. Deus não escraviza, Deus propõe-se. O homem é que se torna ditador do seu irmão. Os libertadores, quando chegaram, traziam como slogan "Deus ka tem" - não há Deus - isso foi aqui propalado. Na altura até falei com o superintendente dos Nazarenos, o Gilberto Évora, e ele dizia que "o partido está a entrar em colisão com a nossa gente". A mentalidade era essa, "Deus ka tem". Isso levou muita gente a ser forçada, porque a barriga conta, não é? Foi um choque muito grande para uma sociedade profundamente católica como a cabo-verdiana. Mas a Igreja também não deixou de dizer que Deus existe e age. E que a sua proposta não é de violência nem é de mentira, mas sim de libertação.
Mas depois houve uma mudança de discurso?
Depois começaram a dizer as coisas de outra maneira. Porque a violência pode ser feita com armas, mas também com a língua. É a língua que mente e corrompe. Porque a verdade de Deus incomoda.

                   A vinda do Papa e a democracia cabo-verdiana

Avançando para a década de 90. Podemos dizer que a vinda do Papa João Paulo II a Cabo Verde foi o momento alto da sua missão?
Terá sido. Até porque alguém dizia que por onde o Papa passava as coisas mudavam.
Acha que teve influência na democra¬tização do país?
É difícil dizê-lo. A democracia estava a acontecer no mundo, seria uma questão de tempo até chegar cá, até porque a Europa estava a impor isso - democracia, desenvolvimento, direitos humanos - os três D. O Papa já tinha lutado muito pela libertação no seu país e talvez tenha soprado qualquer coisa quando chegou, porque menos de um mês depois acon¬tece a abertura [o Papa visitou o arquipélago entre 25 e 27 de Janeiro de 1990, a abertura acontece a 19 de Fevereiro do mesmo ano]. É provável que tenha dito para apressarem o processo, se bem que a democracia já estava em incubação. Portanto, é provável que tenha servido para que as coisas acontecessem mais depressa.
Passados estes anos todos, pode contar-me as conversas que teve com o Papa?
Aqui, curiosamente, conversei pouco. Quando viemos de avião do Sal para a Praia, e ficámos num local mais à parte, ele pegou logo no terço para rezar. Era para dizer, provavelmente, que não havia conversa. Quando fomos daqui para São Vicente, ida e vinda, ele também pegou logo no seu terço para rezar. Na Praia conversámos à mesa, mas éramos muitos porque vieram os bispos da Conferência Episcopal do Senegal. Ou seja, não tivemos conversas particulares. Também não houve muito tempo. E o Papa era um homem muito meditativo. Só quando entrámos no carro, no dia da despedida, é que ele murmurou um "muita dignidade". Dentro da nossa pobreza e das nossas limitações procurámos, de facto, dar dignidade à visita. Era o que podíamos dar.
Acha que teremos outra visita papal a curto/médio prazo?
Não lhe sei dizer, porque são processos muito complicados. João Paulo II veio cá dez anos depois de termos iniciado conversações. Já em 1980, quando ele foi ao Brasil, pensou-se na sua passagem pelo arquipélago, mas não foi possível. Havia problemas também na zona, porque no Senegal havia o desacordo dos muçulmanos. Hoje não sei. Porque não me parece que o actual Papa queira viajar muito. Tem muito para fazer. Muito para escrever.

                              O futuro a Deus pertence

Dom Paulino disse recentemente que o homem tinha deixado de acreditar em Deus. Como se recupera essa espiritualidade?
Quando o homem deixar de ser egoísta. O homem deixou de acreditar em Deus porque se armou em Deus. Toda a prepotência, o orgulho, a arrogância do homem é por causa disso. Como já disse o próprio Bento XVI, Deus estorva o homem. O homem não quer Deus no seu caminho nem no seu projecto. Para recuperar a espiritualidade o homem tem de baixar do seu pedestal de prepotência e começar a pensar que existe o outro. E quando isso acontece, o primeiro outro é Deus. Há uma ditadura do subjectivismo e da relatividade. Enquanto o homem estiver nesse egoísmo será muito difícil. E nós estamos a ver os resultados desse egoísmo: as guerras, a corrupção, as mentiras. O homem quer ver Deus fora da sua vida, porque acha que assim avança mais e evolui mais. O homem quer avançar sozinho, mas assim só faz asneiras. Isto não é de agora, mas generalizou-se tanto que se tornou uma ditadura. Hoje vivemos numa ditadura do ateísmo. O homem acabará por encontrar-se quando der com a cabeça na parede. O homem tem de ser mais humilde, descobrir que não se fez a si próprio.
Uma última questão, podemos um dia esperar um livro de memórias de Dom Paulino Évora?
(sorriso) Não lhe sei dizer. Escrever um livro de memórias é falar demasiado da pessoa e isso não é bom. Só se escrever no estilo das Confissões de Santo Agostinho. Há várias insistências, curiosamente, mas não lhe sei dizer. Se for para pôr em ordem o meu diário, isso sou capaz de fazer, quando tiver tempo ... E eu tenho escrito, mas sobre outros assuntos. Mas, escrever memórias, nunca pensei nisso formalmente. Como disse, se tiver tempo, vou pondo em ordem o diário. Há também outros textos que se encontram espalhados. Se alguém quiser estudar esses documentos depois da minha morte, pode fazê-lo. A democracia também traz problemas, mas pelo menos tira-se a tinta da ditadura e da coerção da liberdade do indivíduo.

22-12-2012,
Jorge Montezinho, Redacção Praia
http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/go/-vivemos-numa-ditadura-do-ateismo

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