Carlos Veiga, presidente do MpD: “Estou optimista em relação ao futuro do MpD”
Carlos Veiga anunciou no domingo que não vai recandidatar-se à liderança do partido. Em conversa com o Expresso das ilhas, o líder do MpD diz que é a hora certa para haver uma renovação no partido, traça um quadro negro em relação ao futuro do país que continua "num plano inclinado" e avisa que os caminhos são as reformas económicas. Para dentro do partido deixou o recado: "deve haver uma reviravolta completa dentro do MpD" para colocar na direcção pessoas com energia positiva.
Expresso das ilhas - No domingo, anunciou publicamente a sua decisão em não se recandidatar à liderança do MpD, nas eleições directas do próximo ano. Por que tomou essa decisão?
Carlos Veiga - A decisão foi tomada há muito tempo porque acho que o MpD está a precisar de uma mudança profunda nos seus procedimentos internos, na composição dos seus órgãos, na dinâmica de funcionamento desses órgãos. Acho que é um bom momento, e fundamental, para fazer essa renovação. O partido está preparado para isso e tem gente adequada para esse efeito. Terminado o debate na generalidade do Orçamento, temos agora de nos orientar para a Convenção. Por isso, achei que era o momento exacto para fazer esse anúncio aos militantes e, em primeiro lugar, aos deputados...
Carlos Veiga - A decisão foi tomada há muito tempo porque acho que o MpD está a precisar de uma mudança profunda nos seus procedimentos internos, na composição dos seus órgãos, na dinâmica de funcionamento desses órgãos. Acho que é um bom momento, e fundamental, para fazer essa renovação. O partido está preparado para isso e tem gente adequada para esse efeito. Terminado o debate na generalidade do Orçamento, temos agora de nos orientar para a Convenção. Por isso, achei que era o momento exacto para fazer esse anúncio aos militantes e, em primeiro lugar, aos deputados...
Vamos ter o Carlos Veiga militante...
Vou continuar militante do partido, activo. O MpD vai continuar, como partido, como instituição, segue o seu caminho. Porque o MpD é forte, muito forte mesmo, na sua composição, nos seus eleitores e apoiantes. O MpD precisa agora de uma nova dinâmica, de uma ruptura com um conjunto de procedimentos, de paradigmas, de coisas que continuam a acontecer dentro do MpD, mas que é preciso dar a volta. Acho que é o momento. E a próxima Convenção é a ocasião propícia para isso.
Vou continuar militante do partido, activo. O MpD vai continuar, como partido, como instituição, segue o seu caminho. Porque o MpD é forte, muito forte mesmo, na sua composição, nos seus eleitores e apoiantes. O MpD precisa agora de uma nova dinâmica, de uma ruptura com um conjunto de procedimentos, de paradigmas, de coisas que continuam a acontecer dentro do MpD, mas que é preciso dar a volta. Acho que é o momento. E a próxima Convenção é a ocasião propícia para isso.
Já veio a público declarações que deixam entender que há alguma roupa suja para lavar dentro do MpD. Ao assumir-se em entrevista que foi um erro acreditar que o retorno de Carlos Veiga à liderança levaria o partido de volta ao poder...Essa é uma das coisas que precisa mudar dentro do MpD. Há muita gente que vem às reuniões do MpD para lavar a roupa suja. Mas para dar soluções (silêncio). Os problemas, todos nós conhecemos, agora precisamos de soluções. Isso é que é importante. Por isso é que deve haver uma reviravolta completa dentro do MpD, para que a energia positiva que existe dentro do partido, dos militantes do partido, se traduza ao nível da direcção.
Disse há bocado que o MpD tem gente capaz e pronta para assumir a liderança do partido e que é alternativa credível ao país. Quem?Não, não vou indicar nomes. Vimos durante as últimas eleições legislativas, presidenciais e autárquicas sobretudo um naipe grande de jovens com arcaboiço, que foram ao embate político, uns ganharam, outros não ganharam, mas mostraram-se líderes. Com capacidade de liderança, com estofo político, que me diz que podemos estar optimistas em relação ao futuro do MpD.
Ulisses Correia e Silva já disse ontem que pode avançar em 2013...
É evidente. Toda a gente sabe no MpD que Ulisses já mostrou aquilo de que é capaz. O que ele tem feito na Praia é a prova provada que é um dirigente capaz. Há outros no MpD.
É evidente. Toda a gente sabe no MpD que Ulisses já mostrou aquilo de que é capaz. O que ele tem feito na Praia é a prova provada que é um dirigente capaz. Há outros no MpD.
Para si quais são os grandes desafios do próximo líder?
O próximo líder tem de organizar o MpD, levar essa organização a estabelecer raízes profundas na sociedade cabo-verdiana, tem de unir, criar um sentido de pertença, organizar um sistema de comunicação com a sociedade, renovar métodos, renovar perspectivas, renovar caras dentro do MpD. São desafios que o partido tem de vencer até 2016 para estar em condições de ganhar as três eleições que irão ter lugar nesse ano. Esse tem de ser o nosso objectivo.
Durante o encontro com os militantes, no domingo, falou da actual situação económica e social do país. Continua a defender que estamos a caminho do abismo?Alguém tem dúvidas? Estou a dizer isso há bastante tempo. Isso está a ser confirmado com factos. Neste momento temos um país a gastar muito mais do que aquilo que produz. E tem estado a fazê-lo de mão estendida para o exterior. O país não foi preparado para viver com uma redução dos fluxos externos, que está a acontecer. O problema é: o que vamos fazer a seguir? Vamos ter de fazer um ajustamento orçamental muito forte, que podia ter sido feito pelo lado das despesas, das receitas ou de uma forma mista.
Mas vai ser feita pelo lado das receitas...
O governo optou por fazê-lo pelo lado das receitas, aumentando impostos, o que vai afectar o dia-a-dia das pessoas mais pobres. Não creio que essa seja a solução. É a confirmação de que estamos num caminho altamente perigoso e que se continuarmos nele, vamos chegar a uma situação de bancarrota. Já vimos que os Estados podem ir à bancarrota. Estamos a ver o que está a acontecer por todo o mundo. Podemos correr esse risco em Cabo Verde. Já não temos grande margem para nos endividarmos, não conseguimos atrair investimento externo, e isso é culpa nossa, não é culpa da crise, porque durante a crise os fluxos externos funcionaram bem em Cabo Verde, vieram mais turistas, as receitas de exportação aumentaram, nesse mesmo período o investimento directo estrangeiro aumentou no mundo, em países de desenvolvimento, em África, na CEDEAO e nas regiões oeste-africanas. Portanto, se para nós está a diminuir, e essa é que é a questão fundamental, temos de recuperar o investimento directo estrangeiro para podermos inverter a situação dificílima que enfrentamos do ponto de vista financeiro, com défice orçamental, com défice das nossas contas correntes. Isso é um péssimo sinal. Continuo a dizer: estamos numa rampa descendente para uma situação que pode ser catastrófica.
O governo optou por fazê-lo pelo lado das receitas, aumentando impostos, o que vai afectar o dia-a-dia das pessoas mais pobres. Não creio que essa seja a solução. É a confirmação de que estamos num caminho altamente perigoso e que se continuarmos nele, vamos chegar a uma situação de bancarrota. Já vimos que os Estados podem ir à bancarrota. Estamos a ver o que está a acontecer por todo o mundo. Podemos correr esse risco em Cabo Verde. Já não temos grande margem para nos endividarmos, não conseguimos atrair investimento externo, e isso é culpa nossa, não é culpa da crise, porque durante a crise os fluxos externos funcionaram bem em Cabo Verde, vieram mais turistas, as receitas de exportação aumentaram, nesse mesmo período o investimento directo estrangeiro aumentou no mundo, em países de desenvolvimento, em África, na CEDEAO e nas regiões oeste-africanas. Portanto, se para nós está a diminuir, e essa é que é a questão fundamental, temos de recuperar o investimento directo estrangeiro para podermos inverter a situação dificílima que enfrentamos do ponto de vista financeiro, com défice orçamental, com défice das nossas contas correntes. Isso é um péssimo sinal. Continuo a dizer: estamos numa rampa descendente para uma situação que pode ser catastrófica.
E já se anunciam mais aumentos...
Exactamente. Agora aumenta o IVA para os bens de primeira necessidade mas também para o sector mais dinâmico da nossa economia (turismo). Vamos ter não só uma redução do consumo, mas também uma redução da procura turística em Cabo Verde. Vamos ter dificuldades. A nossa economia não vai crescer para gerar emprego. O desemprego vai aumentar e, infelizmente, irá atingir o emprego qualificado, os jovens com licenciatura e com formação.
Exactamente. Agora aumenta o IVA para os bens de primeira necessidade mas também para o sector mais dinâmico da nossa economia (turismo). Vamos ter não só uma redução do consumo, mas também uma redução da procura turística em Cabo Verde. Vamos ter dificuldades. A nossa economia não vai crescer para gerar emprego. O desemprego vai aumentar e, infelizmente, irá atingir o emprego qualificado, os jovens com licenciatura e com formação.
Fala-se inclusive dos aumentos de algumas taxas na Enapor...
Sim. Já foi comunicada aos operadores essa intenção. Vamos ter de fazer reformas económicas urgentes. O modelo está completamente esgotado. A crise internacional está para durar e depois de ela ser vencida, o mundo será diferente. A cooperação, a ajuda internacional, será completamente diferente. Já devíamo-nos ter preparado e precavido para isso. O MpD vem falando sobre isso há muito tempo. Não foi ouvido.
Sim. Já foi comunicada aos operadores essa intenção. Vamos ter de fazer reformas económicas urgentes. O modelo está completamente esgotado. A crise internacional está para durar e depois de ela ser vencida, o mundo será diferente. A cooperação, a ajuda internacional, será completamente diferente. Já devíamo-nos ter preparado e precavido para isso. O MpD vem falando sobre isso há muito tempo. Não foi ouvido.
Ia perguntar-lhe isso mesmo, por que as pessoas não estão a escutar a oposição?
Porque as pessoas estão anestesiadas, numa ilusão e numa mentalidade de que os outros têm de fazer por nós. Numa ilusão de que se a gente for útil ao exterior, o exterior vai-nos ajudar. Não estamos a viver do nosso esforço. Estamos a viver do esforço dos outros. E da renda que é distribuída aqui sem esforço, por todos. As pessoas não querem ouvir esse discurso: do esforço, do mérito, do trabalho próprio, do trabalho duro. Pre-ferem a ilusão. Talvez pelas dificuldades que as pessoas passam, viver na ilusão, às vezes, é mais fácil. Mas isso está a acontecer em Portugal onde a mesma política, o mesmo discurso, levou ao estado calamitoso em que o país hoje se encontra. Depois paga-se. Tem de se pagar. Dívida hoje, é imposto amanhã. E é imposto a pagar por toda a gente.
Porque as pessoas estão anestesiadas, numa ilusão e numa mentalidade de que os outros têm de fazer por nós. Numa ilusão de que se a gente for útil ao exterior, o exterior vai-nos ajudar. Não estamos a viver do nosso esforço. Estamos a viver do esforço dos outros. E da renda que é distribuída aqui sem esforço, por todos. As pessoas não querem ouvir esse discurso: do esforço, do mérito, do trabalho próprio, do trabalho duro. Pre-ferem a ilusão. Talvez pelas dificuldades que as pessoas passam, viver na ilusão, às vezes, é mais fácil. Mas isso está a acontecer em Portugal onde a mesma política, o mesmo discurso, levou ao estado calamitoso em que o país hoje se encontra. Depois paga-se. Tem de se pagar. Dívida hoje, é imposto amanhã. E é imposto a pagar por toda a gente.
Nos debates com o Primeiro-ministro nota-se que o Dr. José Maria Neves recorre sempre aos anos 90. Para si, o que explica essa estratégia do líder do PAICV?No fundo ele joga um pouco com a psicologia dos militantes e deputados do MpD que reagem muito à flor da pele, quando ouvem ataques injustos aos anos 90. É uma narrativa que criou de que os anos 90 foram os piores que aconteceram em Cabo Verde quando os números oficiais, os documentos oficiais, mostram o contrário. Esses dados mostram que os anos 90 foram anos de sucesso no crescimento económico, na redução do desemprego, na melhoria das condições de vida das pessoas. E isto está confirmado em documentos até subscritos por este governo. Sobretudo a nível do grupo parlamentar, começa-se a reagir de outra forma. Viu-se no debate sobre a justiça, sobre o orçamento, que já não reagimos a essa táctica que é uma manobra de diversão. Como não há resposta às questões que colocamos, a cassete é a mesma. A verdade é que temos vindo a vencê-los no debate, de forma muito clara. Precisamos passar a narrativa correcta daquilo que foram os anos 90. No debate que vai acontecer entre o MpD e a sociedade há um pilar que tem a ver com ‘quem somos nós' e ‘o que que fizemos', ‘qual é a nossa história'. Vamos com base em dados, em números oficiais, mostrar o que foram esses anos. Foram anos positivos e em muitas matérias. Em termos relativos foi a melhor década do Cabo Verde contemporâneo.
Como avalia o trabalho do grupo parlamentar do MpD?
É um trabalho que está a melhorar cada vez mais. É incompreendido, como acontece em todo o lado. O elo mais fraco do sistema político são sempre os deputados.
É um trabalho que está a melhorar cada vez mais. É incompreendido, como acontece em todo o lado. O elo mais fraco do sistema político são sempre os deputados.
Porque diz isso?
As pessoas não compreendem o trabalho dos deputados. São os mais atacados, sempre. Há ideia de que não trabalham, de que ganham um balúrdio, o que é uma mentira completa, e que não fazem nada. Não é verdade. Infelizmente, o nosso Parlamento trabalha de uma forma intermitente. Mas há um trabalho de retaguarda e de contacto que é muitíssimo importante e que é feito pelos nossos deputados. Mesmo em termos de plenário, de organização do nosso trabalho, penso que a cada sessão vamos aparecendo melhor preparados. Sou optimista em relação a esse grupo e acho que pode almejar chegar a um nível muito elevado de desempenho.
As pessoas não compreendem o trabalho dos deputados. São os mais atacados, sempre. Há ideia de que não trabalham, de que ganham um balúrdio, o que é uma mentira completa, e que não fazem nada. Não é verdade. Infelizmente, o nosso Parlamento trabalha de uma forma intermitente. Mas há um trabalho de retaguarda e de contacto que é muitíssimo importante e que é feito pelos nossos deputados. Mesmo em termos de plenário, de organização do nosso trabalho, penso que a cada sessão vamos aparecendo melhor preparados. Sou optimista em relação a esse grupo e acho que pode almejar chegar a um nível muito elevado de desempenho.
Como é que está a acompanhar as eleições na JpD?
Tranquilamente. As eleições ainda não estão marcadas porque há algum problema logístico para que elas possam correr bem. Há duas candidaturas no terreno onde se encontram muitos desses quadros que constituem uma plêiade nova dentro do MpD, com experiência, capacidade de embate político. Só posso congratular-me com a existência dessas candidaturas e a forma como estão a ligar-se à sociedade, mas também a animar o debate interno na JpD. Conheço as duas pessoas que estão a liderar os dois grupos, tenho muita consideração por ambos, considero que já deram boas provas dentro do partido. Estamos tranquilos em relação à JpD. Estão a atravessar um bom momento que irá desembocar numa convenção da Jota com grande qualidade.
Tranquilamente. As eleições ainda não estão marcadas porque há algum problema logístico para que elas possam correr bem. Há duas candidaturas no terreno onde se encontram muitos desses quadros que constituem uma plêiade nova dentro do MpD, com experiência, capacidade de embate político. Só posso congratular-me com a existência dessas candidaturas e a forma como estão a ligar-se à sociedade, mas também a animar o debate interno na JpD. Conheço as duas pessoas que estão a liderar os dois grupos, tenho muita consideração por ambos, considero que já deram boas provas dentro do partido. Estamos tranquilos em relação à JpD. Estão a atravessar um bom momento que irá desembocar numa convenção da Jota com grande qualidade.
Estamos a poucos dias de completar 22 anos de democracia. O que é preciso melhorar em relação às liberdades, aos direitos e deveres dos cidadãos?
É preciso que os cidadãos assumam plenamente os seus direitos e seus deveres. Assumir é também exigir que as instituições do Estado funcionem da maneira mais eficiente. Sobretudo a justiça; é preciso exigir aos actores político que cumpram a Constituição porque ela é que é base de todo o nosso sistema político e é factor decisivo para a nossa própria competitividade enquanto país. Tenho insistido muito nas minhas intervenções numa ideia defendida pelo Presidente Lula da Silva e que é ‘a necessidade do controlo social'. Quem defende a democracia é a sociedade. Se não houver esse controlo, pode haver desvios, pode haver erros que podem afectar o funcionamento das instituições de controlo. Portanto, sobra o controlo social. A sociedade, as pessoas os cidadãos têm de ser os primeiros a fiscalizar o bom funcionamento da nossa democracia e do nosso Estado de Direito.
Entrevistado por Osvaldo Almeida
Entrevistado por Osvaldo Almeida
8-12-2012
http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/go/carlos-veiga--presidente-do-mpd---estou-optimista-em-relacao-ao-futuro-do-mpd
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