“Calma, sorridente, simples, de pés descalços”
Inês Santinhos Gonçalves
Foi com consternação que a comunidade cabo-verdiana em Macau recebeu a notícia da morte de Cesária Évora. Saudade, sentimento que a diva dos pés descalços tão bem traduziu, é o que deixa também no Oriente.
“Muita tristeza” foi o sentiu Daniel Pinto, presidente da Associação de Amizade Macau-Cabo Verde, ao saber da morte da cantora cabo-verdiana. “Foi uma pessoa que marcou várias gerações e continuará a marcar as gerações vindouras. É uma mulher extraordinária, que subiu a pulso, com muito suor e sacrifício. Era a nossa diva”, conta o representante da comunidade no território. Em jeito de homenagem, a associação encomendou uma missa na Sé que é hoje rezada, pelas 18h.
Apesar de ser uma altura de férias, é esperada grande afluência à cerimónia. “As pessoas estão muito consternadas, mandam mensagens, falam, comentam”, conta.
À perda cultural e patrimonial, Pinto junta uma perda pessoal: “Somos da mesma ilha, do mesmo bairro, da mesma rua. Tive a felicidade de estar muitas e muitas vezes com ela”. Mais do que um ícone da música, Cesária Évora era “uma amiga” que trazia ao dirigente memórias dos avós. “Ia muitas vezes a casa deles e conhecia toda a minha família.”
Por duas vezes a cabo-verdiana esteve em Macau, uma em 1997, outra em 2008. Daniel Pinto lembra o último concerto da diva como “uma memória espectacular”. “No concerto dela esteve toda a gente de pé durante muito tempo a aplaudir, a chamar por ela, foi uma loucura brutal”, recorda.
Dessa noite de há três anos, Pinto lembra “uma mulher calma, sorridente, simples, de pés descalços, que não precisava de fazer grandes movimentos para pôr a plateia toda a mexer, para pôr as pessoas todas a vibrar. Era uma pessoa com alto astral, cheia de luz, uma grande mulher”.
Luís Ortet, cabo-verdiano e editor da Revista Macau, esteve presente no concerto de 1997 e fala de “uma felicidade muito grande” quando se conseguiu aproximar do palco, ficando a cerca de dois metros da cantora.
Como Amália
Daniel Pinto compara a perda de Cesária Évora à morte de Amália Rodrigues: “O que Portugal sente em relação a Amália, nós temos com Cesária Évora. Dificilmente teremos alguém como ela. A Cesária foi e continua a ser a nossa deusa, é insubstituível”.
Ortet diz ter sido com surpresa que recebeu a notícia, apesar de já ser expectável. Em Setembro, a cantora anunciou o fim da carreira, depois de ter sido obrigada a cancelar vários concertos por se encontrar muito debilitada. “Era um desfecho que se aguardava a qualquer momento. No entanto, tocou-me muito profundamente, tenho estado a pensar nisso o dia todo”, conta. “É de grande amplitude aquilo que ela representa para nós, cabo-verdianos, e nós, lusófonos. E bem mais do que isso – tenho visto [reacções] nos noticiários internacionais, na BBC, na TV5 por exemplo.”
São antigas as memórias que Luís Ortet tem da musicalidade que Cesária Évora desenvolveu. “Quando estava na barriga da minha mãe já ouvia mornas e coladeiras. Habituei-me a viver acompanhado delas, mas a surpresa surgiu quando apareceu uma cabo-verdiana que era ouvida por gente de todo o mundo”, aponta o jornalista.
Se alguém poderá surgir no seu lugar, como embaixador de um povo, Ortet não sabe, mas imagina que sim. O momento, no entanto, não lhe permite avaliar: “Cesária é demasiado grande para permitir que neste momento seja possível ver mais alguém”.
É também antiga a memória de José Gabriel Lima, médico cardiologista no Centro Hospitalar Conde de São Januário. “Conheci a Cesária numa tocatina, em 1982, quando era delegado de saúde de São Vicente”, lembra. Esse concerto, refere, marcou o fim de um interregno em que a cantora se manteve afastada dos palcos por uma década. O médico descreve “a voz fantástica e excepcional, suave, envolvente”, da qual ficou fã. Entre os dois gerou-se, então, uma amizade que perduraria até à morte da artista.
Mais do que o papel de “embaixadora de Cabo Verde”, Lima salienta o lado humano da cantora, menos conhecido do público. “Quando conheci a Cesária ela tinha uma vida muito difícil, mas apesar das dificuldades era de uma solidariedade excepcional e de uma grande generosidade para com os outros, repartia tudo o que tinha”, diz.
Uma característica que lembra com carinho era a forma como a cantora insistia em comunicar sempre em crioulo. Mesmo na China. “Estive a jantar com ela no hotel Mandarim e os pedidos que fazia da ementa eram todos em crioulo. E as pessoas percebiam perfeitamente”, conta.
Foi no dia 31 de Dezembro de 2009 que José Gabriel Lima, residente em Macau há 16 anos, esteve pela última vez com Cesária Évora. Celebravam-se as festas de São Silvestre, típicas de São Vicente, de onde a cantora era natural. Dois anos depois, a cerca de duas semanas da época festiva, o médico lamenta a ausência: “É uma noite especial e tenho pena de ela não ter vivido isso este ano”. A importância da festa foi eternizada pela cantora em “São Vicent ê um Brazilim”.
Dessa noite, em 2009, o cardiologista guarda memórias de uma Cesária “compensada”, mas que já mostrava alguma fragilidade e “fumava menos”. “Foi uma tarde agradável em que ela esteve a recordar as grandes noites e espectáculos no Brasil, com o Caetano Veloso, com a Marisa Monte, e também com Zucchero na Itália. Recordou os grandes momentos que teve”.
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