PRAIA - Cabo Verde não tem razões históricas para alimentar ressentimentos contra quem quer que seja, defendeu hoje o historiador cabo-verdiano José Vicente Lopes, ao comentar a homenagem que a Universidade do Mindelo fará, no sábado, ao académico português Adriano Moreira.
Numa entrevista à agência Lusa, Vicente Lopes, autor de vários livros sobre, entre outros, o Campo de Concentração do Tarrafal de Santiago e os bastidores da independência de Cabo Verde, conquistada em 1975, sublinhou que a mestiçagem cabo-verdiana tem subjacente a ideia de que o arquipélago se dá bem com a Europa e África.
"Das antigas colónias portuguesas, Cabo Verde é o país que está mais próximo de Portugal. Por uma infinidade de razões. Somos um povo mestiço, que procura lidar bem com a Europa e com África. Nesse sentido, Cabo Verde não tem qualquer razão para alimentar ressentimentos históricos contra quem quer que seja", afirmou.
Recusando, porém, a ideia de que, passados quase 40 anos, os traumas de 550 anos de colonização portuguesa estão todos ultrapassados, Vicente Lopes lamentou a polémica em torno do doutoramento "Honoris Causa" atribuído a Adriano Moreira pela Universidade do Mindelo (UM), desencadeada por um antigo preso do Tarrafal.
"Cada um sabe das feridas que traz nas costas. Pedro Martins (presidente da Associação dos Ex-Presos Políticos - ACEP) tem as suas dores e carrega-as até hoje. Pessoalmente, não integro a geração dele e dou-me ao luxo de poder alimentar algum distanciamento em relação ao que apontou a Adriano Moreira", disse.
Na terça-feira, em declarações à Lusa, Pedro Martins considerou a distinção a Adriano Moreira "um insulto aos nacionalistas" que lutaram pela independência das antigas colónias portuguesas em África, lembrando que foi o antigo ministro do Ultramar português quem mandou reabrir, em junho de 1961, o campo de concentração do Tarrafal, encerrado sete anos antes.
"A UM é uma entidade privada e pode homenagear quem bem entender e, se entendeu homenagear Adriano Moreira, está no direito de o fazer. Com essa distinção, ganha a UM e ganha, por via indireta, Cabo Verde", sustentou Vicente Lopes, refutando a ideia de que o académico português seja uma "personalidade desagradável" no país.
"É verdade que foi do punho dele que saiu o decreto para reabrir o campo do Tarrafal, mas, tirando isso, Adriano Moreira é uma figura, de certa forma, simpática para Cabo Verde. O que ele entende por Cabo Verde mostra que estava numa linha muito lusotropicalista", sustentou.
Para o historiador, Adriano Moreira integrou a corrente ideológica e política que surgiu então em Portugal, "muito por influência do brasileiro Gilberto Freire", e sempre viu Cabo Verde como um exemplo de mestiçagem, embora fosse o ministro do Ultramar de um período "muito específico", em que "fez o que tinha de fazer".
"Adriano Moreira é talvez um dos primeiros intelectuais da Direita portuguesa a perceber em 1954/55 que África estava a mudar depois da 2.ª Guerra Mundial. Viu isso e, na medida do que lhe era possível, tentou fazer essa mudança", enfatizou, exemplificando com o fim do Estatuto de Assimilado e da Lei do Trabalho Forçado.
"É claro que o que defendia chocava com o pensamento de homens como Amílcar Cabral e Agostinho Neto. Mas o que representa, do ponto de vista histórico, já foi julgado pelo 25 de abril (de 1974) e pela independência dos países africanos de língua portuguesa. Quase 40 anos depois, não vejo nada de mais que Cabo Verde, através de uma entidade privada, como a UM, queira distingui-lo", concluiu.
JSD./Lusa/Fim/José Sousa Dias, da agência Lusa
http://noticias.sapo.cv/lusa/artigo/13453888.html
"Das antigas colónias portuguesas, Cabo Verde é o país que está mais próximo de Portugal. Por uma infinidade de razões. Somos um povo mestiço, que procura lidar bem com a Europa e com África. Nesse sentido, Cabo Verde não tem qualquer razão para alimentar ressentimentos históricos contra quem quer que seja", afirmou.
Recusando, porém, a ideia de que, passados quase 40 anos, os traumas de 550 anos de colonização portuguesa estão todos ultrapassados, Vicente Lopes lamentou a polémica em torno do doutoramento "Honoris Causa" atribuído a Adriano Moreira pela Universidade do Mindelo (UM), desencadeada por um antigo preso do Tarrafal.
"Cada um sabe das feridas que traz nas costas. Pedro Martins (presidente da Associação dos Ex-Presos Políticos - ACEP) tem as suas dores e carrega-as até hoje. Pessoalmente, não integro a geração dele e dou-me ao luxo de poder alimentar algum distanciamento em relação ao que apontou a Adriano Moreira", disse.
Na terça-feira, em declarações à Lusa, Pedro Martins considerou a distinção a Adriano Moreira "um insulto aos nacionalistas" que lutaram pela independência das antigas colónias portuguesas em África, lembrando que foi o antigo ministro do Ultramar português quem mandou reabrir, em junho de 1961, o campo de concentração do Tarrafal, encerrado sete anos antes.
"A UM é uma entidade privada e pode homenagear quem bem entender e, se entendeu homenagear Adriano Moreira, está no direito de o fazer. Com essa distinção, ganha a UM e ganha, por via indireta, Cabo Verde", sustentou Vicente Lopes, refutando a ideia de que o académico português seja uma "personalidade desagradável" no país.
"É verdade que foi do punho dele que saiu o decreto para reabrir o campo do Tarrafal, mas, tirando isso, Adriano Moreira é uma figura, de certa forma, simpática para Cabo Verde. O que ele entende por Cabo Verde mostra que estava numa linha muito lusotropicalista", sustentou.
Para o historiador, Adriano Moreira integrou a corrente ideológica e política que surgiu então em Portugal, "muito por influência do brasileiro Gilberto Freire", e sempre viu Cabo Verde como um exemplo de mestiçagem, embora fosse o ministro do Ultramar de um período "muito específico", em que "fez o que tinha de fazer".
"Adriano Moreira é talvez um dos primeiros intelectuais da Direita portuguesa a perceber em 1954/55 que África estava a mudar depois da 2.ª Guerra Mundial. Viu isso e, na medida do que lhe era possível, tentou fazer essa mudança", enfatizou, exemplificando com o fim do Estatuto de Assimilado e da Lei do Trabalho Forçado.
"É claro que o que defendia chocava com o pensamento de homens como Amílcar Cabral e Agostinho Neto. Mas o que representa, do ponto de vista histórico, já foi julgado pelo 25 de abril (de 1974) e pela independência dos países africanos de língua portuguesa. Quase 40 anos depois, não vejo nada de mais que Cabo Verde, através de uma entidade privada, como a UM, queira distingui-lo", concluiu.
JSD./Lusa/Fim/José Sousa Dias, da agência Lusa
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