PRAIA-A frase é simples, mas reflete o que Cabo Verde sente: um país inteiro de pés descalços. Na ressaca do dia seguinte à morte de Cesária Évora, o murro no estômago ainda é sentido pelo arquipélago e pela diáspora.
E a frase é, curiosamente, de um português, já "crioulizado": João Branco, encenador e diretor do Grupo de Teatro do Mindelo, terra natal de Cesária Évora, onde reside há quase 20 anos. E assume que chorou quando ouviu pela primeira vez a "Diva dos Pés Descalços".
Chorou há duas décadas e chorou sábado, dia em que morreu Cesária. E hoje também. "Talvez" chore terça-feira, dia do funeral de Cize, no Mindelo, tal como, provavelmente, os cabo-verdianos espalhados pelo mundo.
Hoje, na Cidade da Praia, a manhã de sol e o mar azul, escuro, contrastavam com a tristeza e desolação. Nas ruas da capital cabo-verdiana, os semblantes eram maioritariamente de tristeza e o passo ainda mais vagaroso.
Na esplanada do Café Sofia e na Rua 5 de julho (também conhecida por Rua Pedonal), ambas no Plateau, os olhares eram tristes, as conversas em voz baixa e o aperto na alma era grande.
"Ainda não me apercebi bem do que sinto. É estranho, mas não consigo explicar esta enorme tristeza", disse à Agência Lusa Vera de Deus, 44 anos, promotora de eventos, que trabalhou vários anos com Cesária e que tem uma "dor de alma" muito grande. Foi-se a cantora mas fica a música. "Fraca consolação", responde.
No mesmo tom, Geraldo Almeida, advogado, cantor e compositor, 70 anos, amigo, "muito amigo", de "Cize", diz exatamente a mesma coisa: "não tenho palavras para expressar aquilo que Cesária merece". E o mundo está de luto, mundo porque, a universalidade da obra da cantora chegou a esses quatro cantos.
"Foi-se a alma da cabo-verdianidade", disse Junice Oliveira, educadora infantil de 24 anos, que falava à Lusa já na Praça Alexandre Albuquerque, onde alguns, poucos, se sentavam nos bancos do jardim, e também onde, a partir do coreto, decorado com um poster de Cesária, vários altifalantes "distribuíam" a música da mais importante cantora cabo-verdiana.
O consenso é geral. "Não há ninguém que diga mal da Cesária". Confrontado com a ideia de que consenso igual só na altura da independência do arquipélago, em 1975, Alexandre Figueiredo, natural do Mindelo, engenheiro civil de 58 anos, desde que se conhece amigo de Cesária, não consegue articular palavra.
E, tal como João Branco, chora, no presente. "É muito duro". E a "conversa" com o jornalista termina aí. Ainda emocionado, pede desculpa, levanta-se e recebe o conforto dos amigos que o acompanham na esplanada do Café Sofia.

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