PRAIA-Nesta hora de balanço dos dez anos do Governo José Maria Neves haveria vantagem em considerar não só as interpretações dos comunicados das Instituições Internacionais mas também a avaliação das principais vítimas.
Essas vítimas da década de governação do Paicv são sobretudo: os jovens, os desempregados de longa duração, os excluídos do mercado do trabalho, os mais pobres, as empresas nacionais com uma carga fiscal complexa e relativamente pesada (PME/ME) e discriminadas, as ilhas/regiões no marasmo mais profundo etc. Estas vítimas sabem muito bem a sua situação e, avaliarão, à luz dos objectivos económicos e em conformidade com os objectivos de equidade e de igualdade de oportunidades, de forma negativa os efeitos da fraca qualidade do Governo.
A nossa economia tem, no final do ano de 2010, quatro problemas graves unanimemente reconhecidos que correspondem aos objectivos do “carré magique” de política económica: défices gémeos abissais (conta pública e conta corrente da balança de pagamentos), dívida pública total (a assumida e a disfarçada) insustentável, desemprego massivo (principalmente dos jovens: taxa de desemprego acima de 40%) e competitividade medíocre.
Acresce que, do ponto de vista do modelo de desenvolvimento económico de uma pequena economia arquipelágica muito aberta, o sucesso nacional depende da capacidade, não de meramente reclamar ajuda pública ao desenvolvimento e obter empréstimos externos (condicionados) para o betão, mas de melhorar a competitividade das actuais (e potenciais) empresas cabo-verdianas orientadas para o mercado externo. Estas deveriam ser, não desencorajadas, mas apoiadas por medidas enérgicas de fomento da produtividade e da competitividade. Nestes dez anos não se antecipou as consequências de um contexto concorrencial substancialmente diferente criado pela nossa entrada efectiva (em 2013) na Organização Mundial do Comércio. As opções quanto ao padrão de especialização (pequenas indústrias de bens e serviços transaccionáveis internacionalmente, centro financeiro, turismo de qualidade) e o aumento da parte de produtos manufacturados nas exportações ficaram pelas palavras.
É com essa realidade que o Governo de José Maria Neves recusa confrontrar-se, pensando que alguma infra-estrutura inacabada (exemplo, aeroporto de S. Vicente), anúncio de projectos (habitação social: casa para todos) e as pequenas vias de penetração asfaltadas justificam dez anos de governação de um País de Rendimento Médio/baixo em pleno século XXI! Infelizmente, essas obras públicas inacabadas, violando princípios de transparência, de concorrência e de equidade, terão um custo muito oneroso para as gerações futuras.
O Governo pede mais um mandado e a interrogação muito generalizada e justificada é: com este fraco desempenho em dez anos no poder, para quê? Governar Cabo Verde é necessário merecê-lo. Francamente, o País precisa de um novo Governo de gente cosmopolita, capaz de mobilizar o financiamento externo mas também de actuar com “expertise” própria nas escolhas estratégicas e centrado no homem cabo-verdiano.
Paulo Monteiro Jr.
Prof. de Economia, ISCJS
http://liberal.sapo.cv/noticia.asp?idEdicao=64&id=31129&idSeccao=527&Action=noticia

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