domingo, 22 de agosto de 2010

AUSTRALIA:Cinco deputados decidem maioria

Trabalhistas no poder sofrem recuo. Pela primeira vez em 79 anos, um Executivo não será reconduzido

As eleições de ontem para a Câmara dos Representantes australiana produziram, pela primeira vez em 70 anos, um resultado que força a necessidade de coligações para se chegar à formação de novo Governo em Camberra, a capital do país.
A votação, cujos resultados definitivos são conhecidos hoje, assinalou um indisfarçável recuo dos trabalhistas de Julia Gillard, no poder desde 2007. Estes passam de 83 deputados na Câmara cessante para 70 ou 71, ficando aquém dos 76 lugares necessários, num total de 150, para a constituição de um Executivo não dependente de acordos (ver infografia).
Atendendo a que o voto é obrigatório para os 14 milhões de eleitores, numa população total de 22 milhões, o recuo dos trabalhistas revela um claro clima de descontentamento dos australianos para com as suas políticas.
"Os próximos dias serão de grande ansiedade", admitiu Gillard, de 48 anos, na primeira intervenção após a divulgação dos resultados, "mas vamos continuar o combate". Reconheceu, por outro lado, que "os independentes na próxima Câmara vão ter uma palavra a dizer na criação do próximo Governo".
A dimensão do recuo dos trabalhistas vê-se também pela margem da derrota dos seus candidatos em círculos de forte implantação do partido. Caso dos estados da costa leste, como Queensland ou Nova Gales do Sul, em que perderam por margens de 6% a 9% para elementos da coligação dos partidos liberal e nacionalista (centro-direita) liderada pelo liberal Tony Abbott, de 52 anos.
O líder liberal concedeu que "este não é um tempo para triunfalismos prematuros, apenas para reflectir na dimensão das responsabilidades que temos pela frente". Mas "é claro que os trabalhistas perderam a legitimidade para governarem".
Embora esteja impossibilitado de, em princípio, formar Governo sozinho, Abbott surge como grande vencedor, ganhando mais oito a dez deputados. A coligação passa de 63 para 72 a 74 deputados na nova Câmara.
O facto de três dos quatro independentes se situarem na área liberal-conservadora deixa Abbott mais próximo do poder.
Se assim for, como notou ontem John Howard, antigo primeiro-ministro e ex-dirigente liberal, Abbott terá conseguido o feito histórico de, em 79 anos, impedir que um partido no poder seja reconduzido num segundo mandato. "Abbott ressuscitou o partido", declarou Howard numa referência à derrota de 2007 e ao período de instabilidade interna, em que os liberais passaram por três líderes.
A derrota de 2007 assinalou o fim de um período de 12 anos de Governo ininterrupto dos liberais, chefiados por Howard, e a vitória do trabalhista Kevin Rudd. Este foi afastado da liderança do partido e do Governo numa fronda interna em Junho, sendo substituído por Gillard. Desde que assumiu a chefia do Executivo, a taxa de popularidade de Gillard não parou de cair nas sondagens.
A revolta no interior do partido permanece tema de controvérsia entre os trabalhistas. O processo deixou marcas e suscitou clivagens que se manifestaram logo ao anúncio dos primeiros resultados.
Alguns elementos atribuíam a derrota àquele facto e comentários nos media sugeriam a inevitabilidade de ajustes de contas. A conclusão era que Gillard, que foi a primeira mulher a chefiar um Executivo na Austrália, pode ter comprometido o futuro político.
Em paralelo com a votação para a Câmara dos Representantes decorreu a eleição para metade do Senado. E se os Verdes entraram pela primeira vez na câmara baixa do Parlamento, conseguindo um lugar ganho num círculo trabalhista, podem ter duplicado a sua representação na câmara alta.
As projecções concediam-lhes oito a nove lugares, reforçando a sua posição de partido-charneira.
http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1646019&seccao=%C1sia

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