MINDELO-Presidente sem varinha mágica para resolver todos os problemas de São Vicente “Estamos longe, muito longe do que deve ser” Na sua primeira visita oficial à ilha do Monte Cara, desde que assumiu a Presidência da República, Jorge Carlos Fonseca, que afirma querer a Presidência mais perto das pessoas, optou por uma postura descontraída, dispensou quase sempre o fato e a gravata e, de mangas arregaçadas, conversou com os responsáveis das mais importantes empresas da ilha, ouviu as reivindicações da classe artística e deu uma aula de Direito aos jovens mindelenses sobre a Constituição da República.
À chegada à ilha, quinta-feira, 3, Jorge Carlos Fonseca foi recebido nos Paços do Concelho pelo Presidente da Câmara Municipal, Augusto Neves, para a sessão solene de abertura da visita oficial.
No seu discurso, Jorge Carlos Fonseca apelou a uma maior congregação de esforços para fazer face à crise. "Os tempos actuais exigem que todas as sinergias sejam aproveitadas e potenciada. Não apenas porque existe uma crise que a todos apoquenta e cujo fim não está à vista, mas porque a globalização que caracteriza os tempos actuais não se esgota nas componentes económica e financeira", afirmou. "É preciso desenvolver no país uma economia de serviços. Isso já foi dito e redito. Mas essa intenção não passará disso mesmo, mera intenção, enquanto não soubermos mudar a nossa forma de conceber a prestação de serviços", referiu. "É preciso reconhecer que estamos longe, muito longe do que deve ser e podemos fazer", acrescentou.
Jorge Carlos Fonseca entende que é tempo do país diminuir a sua dependência externa, apostando nas exportações. "Toda a nossa acção deve ser conduzida de forma a criar uma estrutura económica que, a médio prazo, possa gerar os seus próprios fluxos financeiros externos, para que a ajuda externa se transforme num ‘apport' marginal para a nossa economia", acrescentou.
"Temos de acelerar o desenvolvimento da nossa capacidade exportadora. Exportar bens e sobretudo serviços deve ser o nosso lema", preconizou.
Sobre a ilha que visitava, o Presidente apelou a um maior entendimento entre os órgãos de poder, um repto significativo, num concelho marcado pelo clima de permanente crispação entre a Câmara e o Governo central.
"Só uma teia densa e responsável de relações entre os poderes públicos, central e sociedade civil mindelense poderá despoletar a energia latente e a vontade de vencer que sustenta qualquer processo de desenvolvimento", rematou.
Com um programa apertado, o Presidente da República era esperado em instituições de ensino, empresas públicas e privadas, das mais diversas áreas, desde as pescas à saúde. Almoçou com o Presidente da Assembleia Municipal, presidiu à abertura do fórum ‘São Vicente tem tudo para dar certo' (ver texto), organizado pelo Centro Cultural do Mindelo, reuniu com os jovens e com os artistas e agentes culturais e ainda teve tempo para visitar o Centro de Acolhimento para Doentes Mentais, de Vila Nova/ Lombo Tanque.
Encontro com os agentes culturais
"Sentimo-nos um pouco mais próximos do poder decisório"
O encontro decorreu, na passada sexta-feira, no centro da cidade, no recentemente reabilitado Palácio do Povo. O Presidente confessou ser a primeira vez que visitou o local e disse ter gostado do que viu. Em breves palavras e de improviso, Jorge Carlos Fonseca disse aos presentes que estava ali mais para ouvir do que para falar e que pretendia que o encontro fosse, acima de tudo, um espaço de diálogo.
Kiki Lima sentou-se ao seu lado, juntamente com a directora do Centro Cultural do Mindelo, Josina Fortes e, em representação da sua classe, deu as boas vindas e teceu algumas considerações e criticas ao panorama artístico da ilha e ainda acerca das condições de trabalho e sobrevivência dos artistas mindelenses.
"É um privilégio para os artistas, um sinal de esperança pois temos, pela primeira vez, um Presidente, não só com sensibilidade artística mas, também ele próprio, um artista com criação mais especificamente na área literária. Falamos a mesma linguagem, por isso, entendemo-nos melhor, no domínio das artes e da cultura em geral" elogiou o artista plástico e escultor.
"Sentimo-nos um pouco mais próximos do poder decisório, pesa embora as limitações do Presidente da República nessa área, mas tem um poder moral e de conselheiro" acrescentou.
Kiki Lima fez um diagnóstico do panorama empresarial e cultural de São Vicente. Como um dos principais problemas, apontou a falta de mercado e o tão falado marasmo económico.
Para o artista, falta "um mercado que permita renovar, vender e conviver com o público. Temos de reconhecer um certo marasmo mesmo tratando-se da ilha ainda considerada capital da cultura".
Nesse ponto, Jorge Carlos Fonseca discordou: "Não sei se ainda pode ser considerada a capital da cultura. A minha impressão é que agora a Praia tende a superar o Mindelo. Anteriormente qualquer espectáculo ou evento cultural esgotava aqui e lá não. Agora é um pouco o contrário" disse sem reservas.
Kiki Lima apontou também críticas à classe artística mindelense. "A falta de uma mentalidade nova e de uma nova postura face às artes deve ser exigida aos artistas. Falta a alguns artistas uma atitude mais profissional. Não faz sentido que os principais actores do mercado não tenham formação" asseverou.
Na óptica de Kiki Lima também o público mindelense já apoiou e acarinhou mais o trabalho dos artistas locais.
É intolerável que tenhamos uma mentalidade numa ilha como São Vicente em que pessoas da classe média reconhecem que entram num espaço de música ‘só para beber uma cervejinha'. O artista é obrigado a ser um biscateiro em detrimento de ser um verdadeiro profissional.
Lima rematou céptico: "O mercado de São Vicente, neste momento, não funciona para nenhuma área"
Uma situação que não necessita de apontar os seus culpados mas, que precisa, segundo Kiki Lima, de ser modificada urgentemente.
O músico Dani Mariano pediu a palavra e não se acanhou. Directo, disse estar desempregado e, por isso, não teme ferir susceptibilidades de ninguém como ele próprio fez questão de frisar. Dani Mariano pediu, acima de tudo, aos actores com uma palavra a dizer na matéria, que deixem os interesses pessoais e políticos de lado e que ponham o interesse de São Vicente em primeiro lugar.
A artesã Helena Andrade queixou-se da falta de espaço para exposições regulares e sugeriu a criação de uma associação de artesãos.
Entre as "afrontas" ultimamente cometidas contra a ilha de São Vicente, o director artístico da associação de teatro Mindelact, João Branco, considerou o abandono do Éden Park como o mais flagrante.
"Já fizemos petições que foram entregues à Assembleia Nacional, no sentido de transformar o Éden Park em património cultural mas não chegou a ser discutido. Acho que é uma vergonha nacional, o que se está a passar com aquela sala", criticou Branco.
João Branco também falou das dificuldades burocráticas que "o artista cabo-verdiano enfrenta sempre que se dirige a países como Angola, Brasil ou São Tomé" e sugeriu ao Presidente que incentive a criação de passaportes especiais que permitam aos homens da cultura transitar dentro da comunidade CPLP com menos burocracia.
Muitos mais artistas das mais diversas áreas, nomeadamente a dança, a música, a literatura, intervieram e expuseram as suas opiniões e reivindicações.
No final, Jorge Carlos Fonseca considerou muito produtiva a reunião e pretendeu dar o melhor tratamento possível às suas reclamações, exercendo influências positivas junto do Governo e apoiando naquilo que estiver ao seu alcance.
Apesar disso, o Chefe de Estado lembrou que não trouxe varinha mágica para resolver todos os problemas apresentados.
Encontro com a Juventude mindelense
"Não há nenhum passo de mágica para eliminar o desemprego"
Apesar de ter como objectivo, falar sobre a Constituição da República, os jovens do ensino secundário e superior mostraram-se mais interessados em debater os problemas da colocação em instituições de ensino superior, o drama das bolsas de estudo e o fantasma do desemprego após concluir a formação.
Mesmo assim, de bom grado responderam às perguntas do eterno professor de direito, Jorge Carlos Fonseca, e receberam como recompensa um exemplar da Constituição da República.
Eram oito da noite de uma sexta-feira e ainda o Presidente falava para o grupo de jovens que foi à Academia Jotamont conhecer melhor o recém-empossado Presidente da República.
Descontraído, o PR brincou e arrancou gargalhadas aos presentes, respondeu às perguntas, questionou, retirou dúvidas sobre Direito Penal a uma aluna do quarto ano da Licenciatura em Direito, ouviu as reclamações relacionadas com as dificuldades financeiras de um jovem pai de três filhos e distribuiu exemplares da Constituição.
Contudo, Jorge Carlos Fonseca lembrou aos jovens que o Presidente não resolve directamente os problemas e que "não há nenhum passo de mágica para resolver, por exemplo, o problema do desemprego."
"O Presidente não pode dar luz nem água mas, pode agir sobre a Electra, pode agir sobre a delinquência juvenil, sobre as lutas de gangs, a violência", acrescentou, explicando que a sua acção passa por "acompanhar, avaliar, denunciar ou influenciar para que o problema possa ser resolvido."
Sobre a Constituição da República, o jurista lamentou que em Cabo Verde não se fale com mais frequência sobre esse documento que dita os princípios fundamentais da vida em sociedade.
"Muitas vezes, até mesmo os juristas lidam com a Constituição de forma longínqua. Não se lhe dá muita importância em Cabo Verde, mesmo junto dos advogados, políticos, professores mas, a Constituição é o fundamento de toda a nossa vida política e social", disse o Chefe de Estado.
Ao terminar o encontro, Jorge Carlos Fonseca lembrou aos jovens que o futuro da ilha também depende deles. "São vocês que têm a responsabilidade de colocar São Vicente nos ombros e levar para o topo".
O Presidente disse querer os jovens cabo-verdianos mais reivindicativos, exigentes e irrequietos.
12-11-2011, 01:25:37
Susana Rendall Rocha, Redacção Mindelo
http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/go/presidente-sem-varinha-magica-para-resolver-todos-os-problemas-de-sao-vicente--estamos-longe--muito-longe--do-que-deve-ser
Fotos:internet




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