PRAIA-Há uma semana que o Sr. Primeiro-ministro se engajou em encontros com diversas entidades públicas e privadas para discutir a crise.
O ritmo vertiginoso das consultas poderia sugerir uma situação de emergência. Para o PM, Cabo Verde não está em crise. O mundo poderá estar a viver uma crise, mas por aqui ainda não chegou, garante. Desdiz-se no momento seguinte, insistindo que medidas devem ser tomadas para prevenir o contágio. A primeira sugerida é esquecer as promessas eleitorais do 13º mês e do salário mínimo.
Do Banco Central, pelo contrário, via Relatório de Política Monetária chega a posição sóbria de que a crise mundial já está a afectar o país.
Há abrandamento do crescimento económico, degradação das reservas externas e aumento da dívida pública. Também que falta ao país competitividade externa, as remessas dos emigrantes tendem a diminuir e as transferências do exterior em ajuda orçamental e donativos já mostram sinais de baixa à medida que aumentam as dificuldades financeiras dos países doadores.
A situação assim como descrita pelo BCV de há muito que era previsível.
A crise da dívida soberana de vários países europeus vem de há mais de um ano atrás. Já levou à derrota eleitoral de governos em vários países, designadamente na Irlanda, em Portugal e proximamente em Espanha. Os seus efeitos não podiam ser ignorados.
Medidas para prevenir os seus efeitos em Cabo Verde há muito que podiam ter sido tomadas. Em vez disso, o Governo optou por fazer promessas que contrariavam qualquer ideia de crise. Tinha uma eleição para ganhar.
Na semana passada, o Presidente da República fez um apelo em São Vicente para se conjugar esforços na luta contra a crise. O frenesim de consultas do governo poderia sugerir que é essa finalidade que o motiva. Parece porém interessar-lhe primeiramente um acordo de parceria estratégia que visa, como diz o PM, "refrear algumas reivindicações, algumas expectativas". Se assim é, perde-se mais uma oportunidade de se conseguir um apoio social e político alargado para se fazer as reformas que se impõem para que o país ganhe a competitividade externa de que tanto precisa.
A disponibilidade de todas as entidades públicas e privadas em se encontrarem com o Primeiro-ministro não deve ser defraudada. E não deve ser transformada num gesto vazio que só serve interesses de imagem e para aplacar a exigência de cumprimento de promessas eleitorais enquanto o governo procura espaço para prosseguir sozinho com as suas políticas.
A desconfiança dos motivos do governo provém da persistência na negação do óbvio como todo o país pôde assistir no programa "Discurso Directo" na Rádio Nacional. É perturbador porque indicia insistência no mesmo caminho que se trilhou nos últimos três anos. As pessoas sentem o efeito da crise tanto na perda de emprego, na degradação social à volta e na perda da dinâmica económica em todas as ilhas. Não se pode negar às pessoas o que sentem na pele e vêem todos os dias ao seu redor.
Para as entidades que acederam aos encontros com o PM não seria agradável nem dignificante que se sentissem como simples figuras de um mise-en-scène para servir interesses pouco claros. Há pois que dar à volta à política como tem sido feita em Cabo Verde, orientar-se para uma perspectiva inclusiva, menos polarizante e mais pragmática na obtenção de resultados que servem o interesse de todos.
11-11-2011
A Direcção - Expresso das Ilhas
Foto:Liberal.cv
http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/go/editorial--consultas-para-valer-ou-mise-en-scene-

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