TACV-CABO VERDE AIRLINES-O prazer de viajar bemDIFERENÇA DE CULTURA TRAMOU GESTÃO DE GILLES FILEATREAULT
Fileatreault provocou uma deterioração, ainda maior, da empresa de bandeira cabo-verdiana. Afinal, em que condições financeiras encontrou a TACV?
António Pereira Neves - Em primeiro lugar quero agradecer essa oportunidade que a Rádio Atlântico me dá para falar um pouco sobre a TACV que é nossa companhia de bandeira e que devemos fazer tudo para assegurar a sua sobrevivência e mais do que isso a sua recuperação e relançamento.Relativamente à questão, de facto as coisas não correram bem e é do conhecimento público. Não correram bem por diversos motivos. O senhor Gilles, de facto, desde início enfrentou diversas dificuldades... Devemos reconhecer que, de facto, a TACV..., eu digo isso baseado na experiência que já possuo da empresa de 9 meses, a TACV é uma empresa complexa com uma cultura muito própria e creio que o primeiro choque aconteceu de uma diferença de cultura muito grande entre o senhor Gilles, seu estilo de gestão e de resolução dos problemas e de cultura global da TACV. Parece ter havido, desde logo, uma clivagem nesse aspecto. Essa clivagem não foi ultrapassada. Pelo contrário, algumas medidas tomadas no sentido da reestruturação causaram reacções muito fortes e negativas no seio do pessoal. Desde logo sectores da empresa se puseram frontalmente contra as medidas de recuperação e reestruturação lançados pela anterior gestão...
RA - Pelas suas palavras iniciais, o Gilles Fileatreault teria sido boicotado...
APN - Eu não chegarei a esse ponto, mas é preciso reconhecer que não houve aquele entrosamento que deve existir em processos de reestruturação; processos que são complexos, que mexem com a cultura, com atitudes.A medida de reestruturação dos quadros do pessoal - que é uma medida necessária uma vez que a TACV tem pessoal a mais, precisamos racionalizar as estruturas, precisamos tornar a estrutura mais eficiente e mais de acordo com a escala das operações da TACV -, foi uma medida que, desde logo, encontrou por parte do colectivo da TACV uma hostilidade muito forte e terá de facto marcado em definitivo o futuro da missão da anterior administração.A par disso foram tomadas outras medidas de expressão comercial como por exemplo..., eu reconheço que a TACV para equilibrar as suas contas e para recuperar terá que expandir as suas operações, mas a expansão não poderá ser feita a custa do agravamento da situação financeira da companhia através da realização de voos que não são rentáveis.Portanto há um conjunto de factores que levaram que a anterior administração não tivesse sucesso e de a companhia de facto ter ficado pior e com problemas acrescidos por resolver após a saída da anterior administração.
RA - Podemos classificar como calamitosa a situação financeira que encontrou?
APN - A situação financeira dos TACV nunca foi boa. A TACV sempre passou por situações aflitivas do ponto de vista financeiro. Só que os problemas se agravaram durante a gestão da anterior administração em decorrência das situações que fiz referência. Não se pode pensar, por exemplo, em realizar voos sistematicamente deficitários no quadro de uma politica de expansão que é necessário para que isso não tenha reflexo na tesouraria da empresa criando dificuldades à empresa em pagar os seus compromissos. De modo que, nós hoje dizemos que a empresa está em situação de falência técnica.
RA - Há pelo menos 10 anos que oiço falar na falência técnica da TACV...
APN - Já dura há 10 anos e então não significa que a empresa vai fechar as portas. Temos que desmistificar esse conceito de falência técnica. Há milhares de empresas em situações de falência técnica e nem por isso se encerraram as suas portas. Falência Técnica é um conceito contabilístico que significa que os capitais próprios são negativos mas daí em falar-se de falência em termos de encerramento total vai uma distância muito grande e é evidente que a TACV não vai cair na situação de fechar as portas.
RA - Falando ainda na anterior gestão. Houve um acordo importante com a TAAG (de Angola) e a TACV no sentido da empresa cabo-verdiano transportar os seus passageiros para o espaço europeu. O acordo foi rescindido por falta de qualidade da empresa cabo-verdiana. Uma vez que a TAAG continua ainda proibida de voar para a União Europeia pensa retomar contactos com a companhia angolana para uma nova parceria?
APN - É evidente que a TACV tem que encontrar parcerias para alavancar as suas operações; seja do ponto de vista de aquisições de aparelhos para puder expandir as suas operações e para a sua recuperação financeira. Nós temos que aceitar que precisamos de parcerias para recuperarmos a empresa do ponto de vista técnico, do ponto de vista financeiro e do ponto de vista comercial. Temos tido diversos contactos, com diversos parceiros e é evidente que a TAAG é uma dessas alternativas. Temos tido contactos com a TAAG que estão a evoluir e, sinceramente, esperamos vir a encontrar um terreno de entendimento para pudermos sair dessa situação em que encontramos e pensar num futuro melhor para a nossa empresa.
RA - Sobre o acordo feito anteriormente com a TAAG houve ou não um retomar das negociações?
APN - De facto fez-se um acordo com a TAAG há um ano, ano e meio que não avançou e que devemos também reconhecer que era difícil avançar nas condições em que a empresa operava na altura. Em decorrência de termos falhado esse acordo, a TAAG encontrou outros parceiros que neste momento estão a fazer voos para eles. De modo que agora temos que pensar na TAAG no esforço no âmbito da privatização da companhia e a TAAG é claramente, portanto, uma parceira com que temos que contar no rol dos potenciais parceiros para essa privatização da TACV.
TACV TEM EXCESSIVO NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS
RA - Em carta recente enviada aos trabalhadores da TACV, algo inédito no País o senhor assumiu que a companhia encontra-se em falência técnica e só com medidas duras e antipáticas ela poderá ser salva. Quais serão essas medidas que anunciou?
APN - Eu defendo que devemos gerir, exercer as nossas responsabilidades, funções com verdade e com transparência. E a TACV, dado à situação gravíssima em que se encontrava, era preciso que as pessoas soubessem da real situação da empresa e todos pudessem reflectir e pensar como é que nós poderemos dar a volta à situação e pôr a empresa no rumo que ela deve seguir como entidade económica que tem responsabilidades que é um bem público, é uma empresa pública, de capitais públicos e que portanto temos responsabilidades perante a sociedade. É nesse quadro que resolvi escrever aquela carta explicando e pondo os pontos nos iis e propondo medidas para que a gente pudesse sair da situação em que nos encontrávamos. Devo dizer que a carta teve impacto, sinto que as pessoas perceberam a situação, compreenderam que as tais medidas antipáticas deviam ser tomadas, acabamos por tomá-las...
RA - Poderia anunciar essas medidas?
APN – Basicamente, “mexemos” em subsídios que foram sendo atribuídos, ao longo dos tempos, sem que tivesse havido uma preocupação relativamente a carga financeira que esses subsídios representavam ou representam para a companhia. Em nenhum momento nós “mexemos” nos salários das pessoas, naquilo que, contratualmente, nós somos obrigados. Mas sim apenas nas remunerações acessórias para diminuirmos os custos e para colocar os subsídios em níveis comportáveis, aceitáveis sem pôr em perigo a dignidade das pessoas, designadamente do nosso pessoal em serviço de voo que tem direito a subsidio para puderem estar nos países para onde nós voamos. A nossa preocupação em agir sobre os custos foi com o objectivo de termos maior competitividade em termos de tarifa na óptica de que isso é essencial para podermos ganhar mais tráfico e mais mercado, para pudermos voar mais.Devo dizer que não agimos apenas sobre os subsídios, agimos também sobre outros factores de custo que pesam na estrutura global dos custos da empresa. Agimos sobre o catering, fornecimento sobre serviços de terceiros, que procuramos racionalizar tudo na óptica de que hoje a competição entre as companhias aéreas se faz mas pelo lado dos custos de que outras vertentes.
RA - O fecho de algumas linhas, como por exemplo Inglaterra e Polónia, por onde a TACV operava, vem também nessa sequência de diminuição de custos por serem linhas pouco rentáveis?
APN - Eram linhas pouco rentáveis em que a empresa incorria em prejuízos realizando essas linhas. Devo dizer que quando cheguei, algumas dessas linhas já tinha sido abandonadas. A linha de Londres, Varsóvia já tinham sido abandonadas por serem deficitárias. Nós reduzimos algumas outras frequências em outras linhas por termos chegado à conclusão que havia um excesso de oferta relativamente a procura e nós não podemos meter a cabeça na areia; nós temos que gerir é com dados, é com números, com contas e é isso que temos que fazer de uma forma responsável e de uma forma transparente porque nós estamos a gerir recursos públicos e, do nosso ponto de vista dos recursos públicos, devem ser geridos com eficiência e da forma como temos estado a fazer na TACV.
RA - Ainda sobre a redução dos custos. A TACV tem excesso de pessoal. A sua administração tem negociado com trabalhadores, sindicados a saída de trabalhadores de forma voluntária mediante indemnização?
APN - Nós temos, de facto, uma estrutura pesada em termos de pessoal. Temos gente a mais. A política do pessoal nos TACV nunca foi uma politica voltada a rentabilidade das operações, para a eficiência. Foi uma política eivada de factores não empresariais, factores que passaram ao lado dos interesses dos objectivos de unidade económica e que tem que apresentar excedentes. Quer dizer, nós não podemos pensar de outra forma. A TACV não pode ser considerada uma empresa de cariz social para dar empregos às pessoas.Temos de facto muita gente e há que racionalizar, há que reestruturar. O problema é que, digamos…, a nossa legislação laboral é extremamente inimiga, digamos assim, da eficiência e da rentabilidade das empresas nesse aspecto. Fazer o ajustamento do quadro do pessoal no âmbito da legislação laboral que nós temos em Cabo Verde é uma coisa extremamente difícil, penosa e custosa. De modo que o temos que fazer, do nosso ponto de vista, é aumentarmos a escala das operações da TACV de modo que a empresa não tenha que fazer um ajustamento muito forte no seu quadro de pessoal e penso que isso poderá ser possível em decorrência das medidas que já tomamos, estou em crer que hoje estamos mais competitivos em termos tarifários e se formos capazes de assegurar uma maior quota no seguimento turístico, nós podemos de facto realizar mais voos, mais operações, facturar mais e diluir portanto o custo de estrutura do pessoal no conjunto dos proveitos da TACV. Essa é uma ginástica que nós temos que fazer para evitar que tenhamos custos sociais decorrentes do excesso do pessoal.
RA - Pela sua resposta vejo que tem a preocupação em evitar despedimentos. Mas será uma boa medida em termos de gestão ainda mais numa altura em que há uma crise financeira globalizante?
APN - Bem se repararmos o que está a acontecer, podemos verificar que as companhias aéreas estão a despedir pessoal e em números significativos. Agora, na nossa situação, eu creio que nós podemos minimizar essa situação se conseguirmos aumentar rapidamente as escalas das nossas operações e é isso que estamos a tentar nesse momento mas tendo também sempre presente que o factor custo/pessoal pesa nas estruturas dos custos da TACV.
A COMPETIÇÃO DE ALCYONAIR E A AQUISIÇÃO DAS ROTAS DA AIR SENEGAL
RA - A TACV possui dois Boeings para operações a nível internacional. Segundo lemos na imprensa cabo-verdiana o leasing de um desses Boeings termina este ano. O que é que a sua administração vai fazer? Prolongar o vínculo? Adquirir novos aparelhos?
APN - O Primeiro Boeing adquirido pelos TACV, o leasing termina dentro de dias e já decidimos fazer a renovação do leasing por mais dois anos porque consideramos que é a melhor solução para a TACV depois de analisar os custos/benefícios. Nós optamos por estender o leasing por mais dois anos. O segundo Boeing o leasing termina em 2011.O que nós temos que fazer nos próximos dois anos é estudar a nossa frota e tomar a melhor decisão. E, como sabe, em dois anos muita coisa pode acontecer. De todo o modo antevejo que seja uma decisão muito difícil porque neste momento temos dois aparelhos da mesma família, um pode substituir o outro; dá-nos maior flexibilidade em termos operacionais, são aviões muito bem adaptados ao nosso tráfico, nas rotas que operamos, as características dos nossos passageiros como também em termos de cargas transportadas e de facto o Boeing 757 ainda não tem um substituto no mercado e por isso antevejo que a decisão seja muito difícil. Espero não estar neste processo de decisão (risos). Pronto é uma questão séria, muito importante e que terá que ser...
RA - Na sua opinião pessoal acha que a empresa deve adquirir pelo menos mais um avião Boeing?
APN - Em primeiro lugar temos que optimizar os aviões que temos nesse momento, os aviões para voos intercontinentais. E, por outro lado, ver se através da expansão que se quer segura, realista das nossas operações sejam rentáveis. Depois que estudos consistentes que mostrem a viabilidade das novas rotas podemos então sim pensar em aumentar a nossa frota.É isso que estamos a fazer, optimizar os nossos aviões que, neste momento, voam a uma taxa inferior à média óptima da indústria e, por outro lado, ver se podemos acrescentar mais aparelhos à nossa frota em decorrência do aumento do tráfico e de operações da TACV.
RA - A transportadora aérea de Cabo Verde está também a renovar a sua frota para as suas linhas domésticas e regionais. Como está esse processo?
APN - A nível nacional e regional a frota foi toda ela renovada e hoje temos aparelhos novos. Aparelhos que nos satisfazem e que, do ponto de vista operacional, adaptam-se bem ao tráfico e às linhas que operamos e estão com uma taxa de ocupação muito boa.Com as mexidas que fizemos nas tarifas domésticas, aumentamos a taxa de ocupação nos aviões. No mercado regional há oportunidades que ainda podemos aproveitar, designadamente com o provável desaparecimento em definitivo da Air Senegal, há aí um espaço que a TACV pode ocupar e nós estamos também a trabalhar para que isso aconteça e porque não reforçar a nossa presença nesse mercado? Há discussões em curso e quero crer que teremos boas novidades dentro de pouco tempo.
RA - Quantos aviões a empresa possui neste momento para os voos domésticos e regionais?
APN - Neste momento temos 3 ATRS novos, sendo 2 ATR- 72 e um ATR-42
RA - A nível interno conta com a concorrência da Halcyonair. Como tem sido a convivência com esta nova concorrente para um Mercado pequeno como é Cabo Verde?
APN - Nós temos uma relação normal com a empresa. Nós temos interesses comuns em termos de enquadramento, em termos de contexto em que, de facto, desenvolvemos as nossas operações. No contexto laboral, por exemplo, é comum às duas companhias e interessa-nos, portanto, estar em sintonia para que este contexto seja mais “amigo” no âmbito da exploração das duas companhias.É sempre um concorrente que entrou no mercado com preços muito agressivos que nos roubou de facto alguma fatia do Mercado, mas que a TACV soube responder não só em termos de preços mas também em termos de redução das irregularidades relativamente a atrasos, aos cancelamentos etc. Hoje temos uma situação muito melhor, muito mais estável e claramente nós temos uma posição dominante no mercado e espero que possamos continuar com essa posição dominante.
RA - Falando agora de novas rotas. Depois de nove meses à frente do Conselho de Administração, quais as linhas que são rentáveis e são para continuar ou reforçar?
APN - Na Linha Cabo Verde/Portugal nós reduzimos o número de frequências para ajustar a oferta à procura sem termos que mexer nos preços e acho que foi uma decisão acertada. Mexemos também no horário dos nossos voos na perspectiva de uma maior conveniência para os nossos passageiros, no sentido de mandar uma mensagem que também queremos ajustar as nossas operações às necessidades e aos desejos dos nossos passageiros e creio que tomamos a decisão acertada na linha praia/Lisboa. Também conseguimos estabilizar e rentabilizar uma segunda frequência para Boston…
RA – É uma das linhas mais rentáveis pelos comentários que oiço…?
APN – Sim, é uma das linhas mais rentáveis. Havia algum temor que, provavelmente, não houvesse tráfico para sustentar as frequências mas foi uma decisão algo ousada que nós tomamos e hoje já estamos a pensar se, pelo menos em algumas épocas do ano, não se justifica uma terceira frequência.A nossa linha para Amesterdão mostra que há períodos que há pouco tráfico e para colmatar isso, passamos a combinar Amesterdão com Las Palmas e acabamos por rentabilizar as duas operações. Foi também uma decisão acertada do ponto de vista económico e portanto vai se reflectir nas contas de forma positiva.A única linha que nos preocupa nesse momento é a linha de Fortaleza que tem tido uma taxa de ocupação baixa e tivemos por isso que suspender a segunda frequência que foi lançada há uns meses atrás mas estamos a agir em termos das nossas estruturas em Fortaleza onde mudamos de GSA, estamos a criar novas estruturas em Fortaleza para vermos se poderemos relançar as nossas operações e viabilizar em definitivo uma frequência e em seguida avançar com uma segunda frequência. A minha deslocação neste momento aqui na Holanda é também na preocupação da rentabilização da nossa linha de fortaleza. Neste momento já não temos um contrato que funcionou no passado com a FLY Brasil e estamos a negociar para ver em que condições podemos retomar essa parceria e, provavelmente, também avançar com outros operadores no sentido de levarmos um seguimento turístico para a nossa companhia e pensamos que poderemos conseguir isso uma vez que estamos em condições de praticar tarifas que sejam atractivos.
RA - Ainda durante a sua administração está previsto abrir novas rotas para países que têm impulsionado o turismo em Cabo Verde como a Itália por exemplo?
APN - Há contactos algo avançados relativamente a Itália. Nós consideramos que é bom, até do ponto de vista psicológico, que a TACV retome os voos com a Itália que foi o primeiro país de onde trouxe turistas para a ilha do Sal. Como eu disse anteriormente, hoje estamos em condições de apresentar tarifas mais competitivas que nos permite aproximarmos dos “Tour-operates”. Estamos a fazer um forcing junto do mercado alemão, embora estejam menos avançados que o mercado italiano. Julgamos também que pode ser possível. Queremos também reabrir a linha Praia/Londres mas antes queremos certificar-nos que essas linhas serão rentáveis para a companhia. Basicamente, queremos assegurar o número de lugares nos nossos aviões que permitem o equilíbrio entre os custos e os proveitos decorrentes dessas operações.Se quiser, eu dir-lhe-ia que a empresa hoje se encontra melhor preparada para enfrentar os desafios, pois não há turbulência, não há conflitos, já estabilizamos as nossas operações, a TACV deixou de ser as primeiras paginas dos jornais todas as semanas, as escalas hoje são mais eficientes, desempenham melhor o seu papel, os custos diminuíram em função das medidas de gestão de rigor que foram tomadas e que, portanto, facilitam a nossa vida e é isso que atrai mais passageiros e os Tour-operates para a TACV.
RA - O senhor falou da quase certeza da saída do mercado da Air Senegal. A conquista de mercados a nível da África Ocidental sempre foi uma grande aposta das actuais autoridades cabo-verdianas que há muito vêm falando nisso. Considera, como gestor, esse mercado interessante para os TACV?
APN - Nós temos que ver o segmento sub-regional como uma oportunidade para os TACV. Essa oportunidade poderá ser explorada do ponto de vista comercial e financeiro ou seja, há tráfico, há passageiros para serem transportados, mas temos que assegurar se transportando esses passageiros nós recebemos as receitas decorrentes desse transporte. Portanto não podemos dissociar o aspecto comercial do aspecto financeiro. É isso que temos que ver, ou seja, assegurar que os acordos existentes ou que venham a existir nos dão a garantia de que quando vamos, recebemos as receitas desses voos....
RA - Na minha opinião, neste momento não é crível, tendo em conta a instabilidade por que passam muitos países dessa sub-região africana...
APN - É esse aspecto que nós temos que trabalhar. Nós já decidimos, a nível dos TACV, que vamos aumentar as frequências para Dakar e para Bissau e entretanto estamos a ver em que condições é que podemos fazer a mesma coisa para Banjul e Fretown para asseguramos que quando vamos para esses locais as receitas também entram.
DÍVIDA DA TACV “É ELEVADA E É PREOCUPANTE”
RA - O senhor tem um percurso como gestor que fala por si. Está agora numa empresa onde o único accionista é o Estado de Cabo Verde. Aceitaria que o Governo interferisse na Gestão da sua Empresa?
APN - Eu procuro fazer o meu trabalho com empenho e com dedicação e com convicção. Dedico-me nas coisas que eu faço. Devo confessar que os TACV me tem tirado sono (risos) mas também reconforta-me o facto de ver que as coisas estão a melhorar. Há muita gente na empresa, gente capaz e competente que compreendeu a situação e que estamos a trabalhar juntos para fazer a empresa sair dessa situação...
RA - Mas aceita ou não interferências do Governo no seu trabalho?
APN - Eu devo confessar que eu não tenha tido interferências governamentais na gestão dos TACV. Confesso até que eu gostaria de ver o governo mais activo na promoção, digamos assim, de algumas decisões nossas porque de todo o modo, governo é governo. O Estado é o único accionista da TACV.Eu vejo, se quiser, não interferência (risos) e eu gostaria de facto de ver o governo mais empenhado em termos de orientação politico-estratégica, portanto, para ultrapassarmos os problemas e gostaria também de ver o governo mais envolvido do ponto de vista financeiro de modo a fazer avançar a companhia.
RA - O Governo, segundo relataram jornais cabo-verdianos, vai intervir, financeiramente, na empresa que dirige com cerda de 500 mil contos cabo-verdianos. O montante é suficiente para estabilizar as contas? Qual o montante falando assim por alto que a TACV precisa para estabilizar e puder finalmente ser privatizada?
APN - Eu desminto essa informação avançada que o governo tenha investido 500 mil contos na TACV. Esse valor que a imprensa avançou não corresponde à verdade. Nós estimamos num determinado momento que a empresa teria necessidade de injecção de dinheiro fresco por parte do governo para pudermos acorrer a situações graves em termos de tesouraria que a empresa estava a enfrentar e o governo alegou que tem as suas dificuldades e os seus problemas orçamentais e não podia acudir ao nível que estávamos a pedir e quero aqui dizer que este é um processo que ainda está em curso, em negociação. O que eu posso lhe assegurar é que até este momento temos estado a “aguentar” a situação com os recursos correntes da TACV, recursos esses que entram via o seguimento das receitas decorrentes das nossas operações.É evidente que já disse isso anteriormente e posso confirmar que a minha ideia é que o governo deve intervir, deve ajudar tanto pela via do aumento do capital social negociando com algum parceiro para fazer essa injecção financeira mas também precisamos do governo para nos apoiar na negociação para a reestruturação das dívidas dos TACV uma vez que o Estado é o único accionista da companhia.
RA - A Divida da Empresa neste momento é elevada? É preocupante?
APN - A divida é elevada e é preocupante. É uma dívida que se acumulou ao longo dos anos, tanto a entidades privadas como a entidades públicas. Creio que a nível das entidades públicas é mais fácil encontrar uma solução. Relativamente a entidades privadas, designadamente as dividas contratualizadas, é evidente que nós temos que encontrar uma solução.
RA - Mas insistindo na pergunta o montante para sanear a dívida da empresa. Quanto dinheiro o Estado precisaria avançar à empresa que dirige para poder projectar algo de mais grandioso dentro da TACV?
APN - Eu gostaria que o Jornal que avançou com os 500 mil tivesse razão (risos). Seria de facto um grande apoio.
RA - Quase a terminar a nossa entrevista que já vai longa, ao mexer em algumas pedras dentro da empresa sobretudo na área comercial provocou alguma polémica porque o senhor teria tirado os bons para colocar os maus quadros. Os Jornais relataram isso. O que de facto se passou?
APN - Nessas eu prefiro avaliar desempenhos e não imagens que se criam, que se fazem, se constroem através da televisão ou na imprensa de uma maneira geral. Disseram também que eu estava a fazer discriminação, inclusivamente que estava a fazer politica, tirando gente de partido A e colocando gente do partido B. Todas as pessoas que me conhecem como gestor sabem que eu não actuo com base nisso. Se repararmos as pessoas que saíram são pessoas que tiveram responsabilidades directas e assumiram essa responsabilidade na gestão anterior e é evidente que são processos normais. Quer dizer, quando as coisas não correm bem há que se responsabilizar quem estiver envolvido. Os protagonistas principais devem ser responsabilizados e terá sido isso que ocorreu.Eu pessoalmente penso que em Cabo Verde, de uma forma geral, nós precisamos mostrar não é só dizer que eu sou especialista, um especialista terá que traduzir em resultados e pode crer que é isso que me interessa. Não me interessa que as pessoas digam que essa pessoa é um grande comercial se na prática os resultados confirmam o contrário quando teve oportunidade para de facto mostrar as suas competências.
RA - Como tem sido a sua relação com os trabalhadores da empresa de uma maneira geral?
APN - Eu não tenho problemas nenhuns com os trabalhadores. Converso com toda a gente e visito todos os cantos da empresa, participo nos convívios, enfim não tenho problemas porque eu não estou a agir no sentido de prejudicar este ou aquele. Para mim o importante mesmo é a TACV e quando digo isso quero dizer que o importante mesmo são os trabalhadores.Se a TACV não conseguir sair dessa situação o que é que fica em perigo? É o emprego das pessoas que estão na empresa e muitas pessoas deram a vida, anos e anos de trabalho, muitas dessas pessoas não sabem fazer outra coisa, senão o negócio de uma companhia aérea. Eu não digo que tenho razão a 100% mas acredito que as pessoas estão de acordo que as nossas medidas já deviam ter sido tomadas há já algum tempo.
RA - Acha então que a empresa está no bom caminho?
APN - Eu gostaria que fossemos mais eficientes que estivéssemos a voar mais. Acredito que já se fez um bocado. Eu não sou do tipo que assume para si todos os louros, há um trabalho sério e dedicado de muito boa gente dentro da empresa e é esse trabalho que devemos valorizar e é esse trabalho que devemos continuar.
RA - A empresa está em dificuldades financeiras graves. Se o Estado não investir pensa abandonar a empresa pois de certeza não teria condições para fazer um trabalho satisfatório em prol da recuperação definitiva da empresa?
APN - Eu não creio que o Estado não invista nos TACV. Provavelmente no imediato o Estado não esteja em condições de acudir a níveis que são as necessidades da companhia. Mas eu não queria especular sobre isso, as discussões estão em curso e estou convencido que o Estado acabará por assumir as suas responsabilidades porque também as tem nesse processo de recuperação de uma companhia que é essencial para o País e que é factor de auto estima para muitos cabo-verdianos que residem no exterior.A TACV é um valor que nós não podemos ignorar e nós temos que defender por isso eu não creio que o Estado nos volte as costas. Aliás há declarações de membros do governo, a começar pelo primeiro ministro, dizendo que a TACV é para ser defendida, é para ser valorizada e para ser reestruturada e para ser recuperada.
Fileatreault provocou uma deterioração, ainda maior, da empresa de bandeira cabo-verdiana. Afinal, em que condições financeiras encontrou a TACV?
António Pereira Neves - Em primeiro lugar quero agradecer essa oportunidade que a Rádio Atlântico me dá para falar um pouco sobre a TACV que é nossa companhia de bandeira e que devemos fazer tudo para assegurar a sua sobrevivência e mais do que isso a sua recuperação e relançamento.Relativamente à questão, de facto as coisas não correram bem e é do conhecimento público. Não correram bem por diversos motivos. O senhor Gilles, de facto, desde início enfrentou diversas dificuldades... Devemos reconhecer que, de facto, a TACV..., eu digo isso baseado na experiência que já possuo da empresa de 9 meses, a TACV é uma empresa complexa com uma cultura muito própria e creio que o primeiro choque aconteceu de uma diferença de cultura muito grande entre o senhor Gilles, seu estilo de gestão e de resolução dos problemas e de cultura global da TACV. Parece ter havido, desde logo, uma clivagem nesse aspecto. Essa clivagem não foi ultrapassada. Pelo contrário, algumas medidas tomadas no sentido da reestruturação causaram reacções muito fortes e negativas no seio do pessoal. Desde logo sectores da empresa se puseram frontalmente contra as medidas de recuperação e reestruturação lançados pela anterior gestão...
RA - Pelas suas palavras iniciais, o Gilles Fileatreault teria sido boicotado...
APN - Eu não chegarei a esse ponto, mas é preciso reconhecer que não houve aquele entrosamento que deve existir em processos de reestruturação; processos que são complexos, que mexem com a cultura, com atitudes.A medida de reestruturação dos quadros do pessoal - que é uma medida necessária uma vez que a TACV tem pessoal a mais, precisamos racionalizar as estruturas, precisamos tornar a estrutura mais eficiente e mais de acordo com a escala das operações da TACV -, foi uma medida que, desde logo, encontrou por parte do colectivo da TACV uma hostilidade muito forte e terá de facto marcado em definitivo o futuro da missão da anterior administração.A par disso foram tomadas outras medidas de expressão comercial como por exemplo..., eu reconheço que a TACV para equilibrar as suas contas e para recuperar terá que expandir as suas operações, mas a expansão não poderá ser feita a custa do agravamento da situação financeira da companhia através da realização de voos que não são rentáveis.Portanto há um conjunto de factores que levaram que a anterior administração não tivesse sucesso e de a companhia de facto ter ficado pior e com problemas acrescidos por resolver após a saída da anterior administração.
RA - Podemos classificar como calamitosa a situação financeira que encontrou?
APN - A situação financeira dos TACV nunca foi boa. A TACV sempre passou por situações aflitivas do ponto de vista financeiro. Só que os problemas se agravaram durante a gestão da anterior administração em decorrência das situações que fiz referência. Não se pode pensar, por exemplo, em realizar voos sistematicamente deficitários no quadro de uma politica de expansão que é necessário para que isso não tenha reflexo na tesouraria da empresa criando dificuldades à empresa em pagar os seus compromissos. De modo que, nós hoje dizemos que a empresa está em situação de falência técnica.
RA - Há pelo menos 10 anos que oiço falar na falência técnica da TACV...
APN - Já dura há 10 anos e então não significa que a empresa vai fechar as portas. Temos que desmistificar esse conceito de falência técnica. Há milhares de empresas em situações de falência técnica e nem por isso se encerraram as suas portas. Falência Técnica é um conceito contabilístico que significa que os capitais próprios são negativos mas daí em falar-se de falência em termos de encerramento total vai uma distância muito grande e é evidente que a TACV não vai cair na situação de fechar as portas.
RA - Falando ainda na anterior gestão. Houve um acordo importante com a TAAG (de Angola) e a TACV no sentido da empresa cabo-verdiano transportar os seus passageiros para o espaço europeu. O acordo foi rescindido por falta de qualidade da empresa cabo-verdiana. Uma vez que a TAAG continua ainda proibida de voar para a União Europeia pensa retomar contactos com a companhia angolana para uma nova parceria?
APN - É evidente que a TACV tem que encontrar parcerias para alavancar as suas operações; seja do ponto de vista de aquisições de aparelhos para puder expandir as suas operações e para a sua recuperação financeira. Nós temos que aceitar que precisamos de parcerias para recuperarmos a empresa do ponto de vista técnico, do ponto de vista financeiro e do ponto de vista comercial. Temos tido diversos contactos, com diversos parceiros e é evidente que a TAAG é uma dessas alternativas. Temos tido contactos com a TAAG que estão a evoluir e, sinceramente, esperamos vir a encontrar um terreno de entendimento para pudermos sair dessa situação em que encontramos e pensar num futuro melhor para a nossa empresa.
RA - Sobre o acordo feito anteriormente com a TAAG houve ou não um retomar das negociações?
APN - De facto fez-se um acordo com a TAAG há um ano, ano e meio que não avançou e que devemos também reconhecer que era difícil avançar nas condições em que a empresa operava na altura. Em decorrência de termos falhado esse acordo, a TAAG encontrou outros parceiros que neste momento estão a fazer voos para eles. De modo que agora temos que pensar na TAAG no esforço no âmbito da privatização da companhia e a TAAG é claramente, portanto, uma parceira com que temos que contar no rol dos potenciais parceiros para essa privatização da TACV.
TACV TEM EXCESSIVO NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS
RA - Em carta recente enviada aos trabalhadores da TACV, algo inédito no País o senhor assumiu que a companhia encontra-se em falência técnica e só com medidas duras e antipáticas ela poderá ser salva. Quais serão essas medidas que anunciou?
APN - Eu defendo que devemos gerir, exercer as nossas responsabilidades, funções com verdade e com transparência. E a TACV, dado à situação gravíssima em que se encontrava, era preciso que as pessoas soubessem da real situação da empresa e todos pudessem reflectir e pensar como é que nós poderemos dar a volta à situação e pôr a empresa no rumo que ela deve seguir como entidade económica que tem responsabilidades que é um bem público, é uma empresa pública, de capitais públicos e que portanto temos responsabilidades perante a sociedade. É nesse quadro que resolvi escrever aquela carta explicando e pondo os pontos nos iis e propondo medidas para que a gente pudesse sair da situação em que nos encontrávamos. Devo dizer que a carta teve impacto, sinto que as pessoas perceberam a situação, compreenderam que as tais medidas antipáticas deviam ser tomadas, acabamos por tomá-las...
RA - Poderia anunciar essas medidas?
APN – Basicamente, “mexemos” em subsídios que foram sendo atribuídos, ao longo dos tempos, sem que tivesse havido uma preocupação relativamente a carga financeira que esses subsídios representavam ou representam para a companhia. Em nenhum momento nós “mexemos” nos salários das pessoas, naquilo que, contratualmente, nós somos obrigados. Mas sim apenas nas remunerações acessórias para diminuirmos os custos e para colocar os subsídios em níveis comportáveis, aceitáveis sem pôr em perigo a dignidade das pessoas, designadamente do nosso pessoal em serviço de voo que tem direito a subsidio para puderem estar nos países para onde nós voamos. A nossa preocupação em agir sobre os custos foi com o objectivo de termos maior competitividade em termos de tarifa na óptica de que isso é essencial para podermos ganhar mais tráfico e mais mercado, para pudermos voar mais.Devo dizer que não agimos apenas sobre os subsídios, agimos também sobre outros factores de custo que pesam na estrutura global dos custos da empresa. Agimos sobre o catering, fornecimento sobre serviços de terceiros, que procuramos racionalizar tudo na óptica de que hoje a competição entre as companhias aéreas se faz mas pelo lado dos custos de que outras vertentes.
RA - O fecho de algumas linhas, como por exemplo Inglaterra e Polónia, por onde a TACV operava, vem também nessa sequência de diminuição de custos por serem linhas pouco rentáveis?
APN - Eram linhas pouco rentáveis em que a empresa incorria em prejuízos realizando essas linhas. Devo dizer que quando cheguei, algumas dessas linhas já tinha sido abandonadas. A linha de Londres, Varsóvia já tinham sido abandonadas por serem deficitárias. Nós reduzimos algumas outras frequências em outras linhas por termos chegado à conclusão que havia um excesso de oferta relativamente a procura e nós não podemos meter a cabeça na areia; nós temos que gerir é com dados, é com números, com contas e é isso que temos que fazer de uma forma responsável e de uma forma transparente porque nós estamos a gerir recursos públicos e, do nosso ponto de vista dos recursos públicos, devem ser geridos com eficiência e da forma como temos estado a fazer na TACV.
RA - Ainda sobre a redução dos custos. A TACV tem excesso de pessoal. A sua administração tem negociado com trabalhadores, sindicados a saída de trabalhadores de forma voluntária mediante indemnização?
APN - Nós temos, de facto, uma estrutura pesada em termos de pessoal. Temos gente a mais. A política do pessoal nos TACV nunca foi uma politica voltada a rentabilidade das operações, para a eficiência. Foi uma política eivada de factores não empresariais, factores que passaram ao lado dos interesses dos objectivos de unidade económica e que tem que apresentar excedentes. Quer dizer, nós não podemos pensar de outra forma. A TACV não pode ser considerada uma empresa de cariz social para dar empregos às pessoas.Temos de facto muita gente e há que racionalizar, há que reestruturar. O problema é que, digamos…, a nossa legislação laboral é extremamente inimiga, digamos assim, da eficiência e da rentabilidade das empresas nesse aspecto. Fazer o ajustamento do quadro do pessoal no âmbito da legislação laboral que nós temos em Cabo Verde é uma coisa extremamente difícil, penosa e custosa. De modo que o temos que fazer, do nosso ponto de vista, é aumentarmos a escala das operações da TACV de modo que a empresa não tenha que fazer um ajustamento muito forte no seu quadro de pessoal e penso que isso poderá ser possível em decorrência das medidas que já tomamos, estou em crer que hoje estamos mais competitivos em termos tarifários e se formos capazes de assegurar uma maior quota no seguimento turístico, nós podemos de facto realizar mais voos, mais operações, facturar mais e diluir portanto o custo de estrutura do pessoal no conjunto dos proveitos da TACV. Essa é uma ginástica que nós temos que fazer para evitar que tenhamos custos sociais decorrentes do excesso do pessoal.
RA - Pela sua resposta vejo que tem a preocupação em evitar despedimentos. Mas será uma boa medida em termos de gestão ainda mais numa altura em que há uma crise financeira globalizante?
APN - Bem se repararmos o que está a acontecer, podemos verificar que as companhias aéreas estão a despedir pessoal e em números significativos. Agora, na nossa situação, eu creio que nós podemos minimizar essa situação se conseguirmos aumentar rapidamente as escalas das nossas operações e é isso que estamos a tentar nesse momento mas tendo também sempre presente que o factor custo/pessoal pesa nas estruturas dos custos da TACV.
A COMPETIÇÃO DE ALCYONAIR E A AQUISIÇÃO DAS ROTAS DA AIR SENEGAL
RA - A TACV possui dois Boeings para operações a nível internacional. Segundo lemos na imprensa cabo-verdiana o leasing de um desses Boeings termina este ano. O que é que a sua administração vai fazer? Prolongar o vínculo? Adquirir novos aparelhos?
APN - O Primeiro Boeing adquirido pelos TACV, o leasing termina dentro de dias e já decidimos fazer a renovação do leasing por mais dois anos porque consideramos que é a melhor solução para a TACV depois de analisar os custos/benefícios. Nós optamos por estender o leasing por mais dois anos. O segundo Boeing o leasing termina em 2011.O que nós temos que fazer nos próximos dois anos é estudar a nossa frota e tomar a melhor decisão. E, como sabe, em dois anos muita coisa pode acontecer. De todo o modo antevejo que seja uma decisão muito difícil porque neste momento temos dois aparelhos da mesma família, um pode substituir o outro; dá-nos maior flexibilidade em termos operacionais, são aviões muito bem adaptados ao nosso tráfico, nas rotas que operamos, as características dos nossos passageiros como também em termos de cargas transportadas e de facto o Boeing 757 ainda não tem um substituto no mercado e por isso antevejo que a decisão seja muito difícil. Espero não estar neste processo de decisão (risos). Pronto é uma questão séria, muito importante e que terá que ser...
RA - Na sua opinião pessoal acha que a empresa deve adquirir pelo menos mais um avião Boeing?
APN - Em primeiro lugar temos que optimizar os aviões que temos nesse momento, os aviões para voos intercontinentais. E, por outro lado, ver se através da expansão que se quer segura, realista das nossas operações sejam rentáveis. Depois que estudos consistentes que mostrem a viabilidade das novas rotas podemos então sim pensar em aumentar a nossa frota.É isso que estamos a fazer, optimizar os nossos aviões que, neste momento, voam a uma taxa inferior à média óptima da indústria e, por outro lado, ver se podemos acrescentar mais aparelhos à nossa frota em decorrência do aumento do tráfico e de operações da TACV.
RA - A transportadora aérea de Cabo Verde está também a renovar a sua frota para as suas linhas domésticas e regionais. Como está esse processo?
APN - A nível nacional e regional a frota foi toda ela renovada e hoje temos aparelhos novos. Aparelhos que nos satisfazem e que, do ponto de vista operacional, adaptam-se bem ao tráfico e às linhas que operamos e estão com uma taxa de ocupação muito boa.Com as mexidas que fizemos nas tarifas domésticas, aumentamos a taxa de ocupação nos aviões. No mercado regional há oportunidades que ainda podemos aproveitar, designadamente com o provável desaparecimento em definitivo da Air Senegal, há aí um espaço que a TACV pode ocupar e nós estamos também a trabalhar para que isso aconteça e porque não reforçar a nossa presença nesse mercado? Há discussões em curso e quero crer que teremos boas novidades dentro de pouco tempo.
RA - Quantos aviões a empresa possui neste momento para os voos domésticos e regionais?
APN - Neste momento temos 3 ATRS novos, sendo 2 ATR- 72 e um ATR-42
RA - A nível interno conta com a concorrência da Halcyonair. Como tem sido a convivência com esta nova concorrente para um Mercado pequeno como é Cabo Verde?
APN - Nós temos uma relação normal com a empresa. Nós temos interesses comuns em termos de enquadramento, em termos de contexto em que, de facto, desenvolvemos as nossas operações. No contexto laboral, por exemplo, é comum às duas companhias e interessa-nos, portanto, estar em sintonia para que este contexto seja mais “amigo” no âmbito da exploração das duas companhias.É sempre um concorrente que entrou no mercado com preços muito agressivos que nos roubou de facto alguma fatia do Mercado, mas que a TACV soube responder não só em termos de preços mas também em termos de redução das irregularidades relativamente a atrasos, aos cancelamentos etc. Hoje temos uma situação muito melhor, muito mais estável e claramente nós temos uma posição dominante no mercado e espero que possamos continuar com essa posição dominante.
RA - Falando agora de novas rotas. Depois de nove meses à frente do Conselho de Administração, quais as linhas que são rentáveis e são para continuar ou reforçar?
APN - Na Linha Cabo Verde/Portugal nós reduzimos o número de frequências para ajustar a oferta à procura sem termos que mexer nos preços e acho que foi uma decisão acertada. Mexemos também no horário dos nossos voos na perspectiva de uma maior conveniência para os nossos passageiros, no sentido de mandar uma mensagem que também queremos ajustar as nossas operações às necessidades e aos desejos dos nossos passageiros e creio que tomamos a decisão acertada na linha praia/Lisboa. Também conseguimos estabilizar e rentabilizar uma segunda frequência para Boston…
RA – É uma das linhas mais rentáveis pelos comentários que oiço…?
APN – Sim, é uma das linhas mais rentáveis. Havia algum temor que, provavelmente, não houvesse tráfico para sustentar as frequências mas foi uma decisão algo ousada que nós tomamos e hoje já estamos a pensar se, pelo menos em algumas épocas do ano, não se justifica uma terceira frequência.A nossa linha para Amesterdão mostra que há períodos que há pouco tráfico e para colmatar isso, passamos a combinar Amesterdão com Las Palmas e acabamos por rentabilizar as duas operações. Foi também uma decisão acertada do ponto de vista económico e portanto vai se reflectir nas contas de forma positiva.A única linha que nos preocupa nesse momento é a linha de Fortaleza que tem tido uma taxa de ocupação baixa e tivemos por isso que suspender a segunda frequência que foi lançada há uns meses atrás mas estamos a agir em termos das nossas estruturas em Fortaleza onde mudamos de GSA, estamos a criar novas estruturas em Fortaleza para vermos se poderemos relançar as nossas operações e viabilizar em definitivo uma frequência e em seguida avançar com uma segunda frequência. A minha deslocação neste momento aqui na Holanda é também na preocupação da rentabilização da nossa linha de fortaleza. Neste momento já não temos um contrato que funcionou no passado com a FLY Brasil e estamos a negociar para ver em que condições podemos retomar essa parceria e, provavelmente, também avançar com outros operadores no sentido de levarmos um seguimento turístico para a nossa companhia e pensamos que poderemos conseguir isso uma vez que estamos em condições de praticar tarifas que sejam atractivos.
RA - Ainda durante a sua administração está previsto abrir novas rotas para países que têm impulsionado o turismo em Cabo Verde como a Itália por exemplo?
APN - Há contactos algo avançados relativamente a Itália. Nós consideramos que é bom, até do ponto de vista psicológico, que a TACV retome os voos com a Itália que foi o primeiro país de onde trouxe turistas para a ilha do Sal. Como eu disse anteriormente, hoje estamos em condições de apresentar tarifas mais competitivas que nos permite aproximarmos dos “Tour-operates”. Estamos a fazer um forcing junto do mercado alemão, embora estejam menos avançados que o mercado italiano. Julgamos também que pode ser possível. Queremos também reabrir a linha Praia/Londres mas antes queremos certificar-nos que essas linhas serão rentáveis para a companhia. Basicamente, queremos assegurar o número de lugares nos nossos aviões que permitem o equilíbrio entre os custos e os proveitos decorrentes dessas operações.Se quiser, eu dir-lhe-ia que a empresa hoje se encontra melhor preparada para enfrentar os desafios, pois não há turbulência, não há conflitos, já estabilizamos as nossas operações, a TACV deixou de ser as primeiras paginas dos jornais todas as semanas, as escalas hoje são mais eficientes, desempenham melhor o seu papel, os custos diminuíram em função das medidas de gestão de rigor que foram tomadas e que, portanto, facilitam a nossa vida e é isso que atrai mais passageiros e os Tour-operates para a TACV.
RA - O senhor falou da quase certeza da saída do mercado da Air Senegal. A conquista de mercados a nível da África Ocidental sempre foi uma grande aposta das actuais autoridades cabo-verdianas que há muito vêm falando nisso. Considera, como gestor, esse mercado interessante para os TACV?
APN - Nós temos que ver o segmento sub-regional como uma oportunidade para os TACV. Essa oportunidade poderá ser explorada do ponto de vista comercial e financeiro ou seja, há tráfico, há passageiros para serem transportados, mas temos que assegurar se transportando esses passageiros nós recebemos as receitas decorrentes desse transporte. Portanto não podemos dissociar o aspecto comercial do aspecto financeiro. É isso que temos que ver, ou seja, assegurar que os acordos existentes ou que venham a existir nos dão a garantia de que quando vamos, recebemos as receitas desses voos....
RA - Na minha opinião, neste momento não é crível, tendo em conta a instabilidade por que passam muitos países dessa sub-região africana...
APN - É esse aspecto que nós temos que trabalhar. Nós já decidimos, a nível dos TACV, que vamos aumentar as frequências para Dakar e para Bissau e entretanto estamos a ver em que condições é que podemos fazer a mesma coisa para Banjul e Fretown para asseguramos que quando vamos para esses locais as receitas também entram.
DÍVIDA DA TACV “É ELEVADA E É PREOCUPANTE”
RA - O senhor tem um percurso como gestor que fala por si. Está agora numa empresa onde o único accionista é o Estado de Cabo Verde. Aceitaria que o Governo interferisse na Gestão da sua Empresa?
APN - Eu procuro fazer o meu trabalho com empenho e com dedicação e com convicção. Dedico-me nas coisas que eu faço. Devo confessar que os TACV me tem tirado sono (risos) mas também reconforta-me o facto de ver que as coisas estão a melhorar. Há muita gente na empresa, gente capaz e competente que compreendeu a situação e que estamos a trabalhar juntos para fazer a empresa sair dessa situação...
RA - Mas aceita ou não interferências do Governo no seu trabalho?
APN - Eu devo confessar que eu não tenha tido interferências governamentais na gestão dos TACV. Confesso até que eu gostaria de ver o governo mais activo na promoção, digamos assim, de algumas decisões nossas porque de todo o modo, governo é governo. O Estado é o único accionista da TACV.Eu vejo, se quiser, não interferência (risos) e eu gostaria de facto de ver o governo mais empenhado em termos de orientação politico-estratégica, portanto, para ultrapassarmos os problemas e gostaria também de ver o governo mais envolvido do ponto de vista financeiro de modo a fazer avançar a companhia.
RA - O Governo, segundo relataram jornais cabo-verdianos, vai intervir, financeiramente, na empresa que dirige com cerda de 500 mil contos cabo-verdianos. O montante é suficiente para estabilizar as contas? Qual o montante falando assim por alto que a TACV precisa para estabilizar e puder finalmente ser privatizada?
APN - Eu desminto essa informação avançada que o governo tenha investido 500 mil contos na TACV. Esse valor que a imprensa avançou não corresponde à verdade. Nós estimamos num determinado momento que a empresa teria necessidade de injecção de dinheiro fresco por parte do governo para pudermos acorrer a situações graves em termos de tesouraria que a empresa estava a enfrentar e o governo alegou que tem as suas dificuldades e os seus problemas orçamentais e não podia acudir ao nível que estávamos a pedir e quero aqui dizer que este é um processo que ainda está em curso, em negociação. O que eu posso lhe assegurar é que até este momento temos estado a “aguentar” a situação com os recursos correntes da TACV, recursos esses que entram via o seguimento das receitas decorrentes das nossas operações.É evidente que já disse isso anteriormente e posso confirmar que a minha ideia é que o governo deve intervir, deve ajudar tanto pela via do aumento do capital social negociando com algum parceiro para fazer essa injecção financeira mas também precisamos do governo para nos apoiar na negociação para a reestruturação das dívidas dos TACV uma vez que o Estado é o único accionista da companhia.
RA - A Divida da Empresa neste momento é elevada? É preocupante?
APN - A divida é elevada e é preocupante. É uma dívida que se acumulou ao longo dos anos, tanto a entidades privadas como a entidades públicas. Creio que a nível das entidades públicas é mais fácil encontrar uma solução. Relativamente a entidades privadas, designadamente as dividas contratualizadas, é evidente que nós temos que encontrar uma solução.
RA - Mas insistindo na pergunta o montante para sanear a dívida da empresa. Quanto dinheiro o Estado precisaria avançar à empresa que dirige para poder projectar algo de mais grandioso dentro da TACV?
APN - Eu gostaria que o Jornal que avançou com os 500 mil tivesse razão (risos). Seria de facto um grande apoio.
RA - Quase a terminar a nossa entrevista que já vai longa, ao mexer em algumas pedras dentro da empresa sobretudo na área comercial provocou alguma polémica porque o senhor teria tirado os bons para colocar os maus quadros. Os Jornais relataram isso. O que de facto se passou?
APN - Nessas eu prefiro avaliar desempenhos e não imagens que se criam, que se fazem, se constroem através da televisão ou na imprensa de uma maneira geral. Disseram também que eu estava a fazer discriminação, inclusivamente que estava a fazer politica, tirando gente de partido A e colocando gente do partido B. Todas as pessoas que me conhecem como gestor sabem que eu não actuo com base nisso. Se repararmos as pessoas que saíram são pessoas que tiveram responsabilidades directas e assumiram essa responsabilidade na gestão anterior e é evidente que são processos normais. Quer dizer, quando as coisas não correm bem há que se responsabilizar quem estiver envolvido. Os protagonistas principais devem ser responsabilizados e terá sido isso que ocorreu.Eu pessoalmente penso que em Cabo Verde, de uma forma geral, nós precisamos mostrar não é só dizer que eu sou especialista, um especialista terá que traduzir em resultados e pode crer que é isso que me interessa. Não me interessa que as pessoas digam que essa pessoa é um grande comercial se na prática os resultados confirmam o contrário quando teve oportunidade para de facto mostrar as suas competências.
RA - Como tem sido a sua relação com os trabalhadores da empresa de uma maneira geral?
APN - Eu não tenho problemas nenhuns com os trabalhadores. Converso com toda a gente e visito todos os cantos da empresa, participo nos convívios, enfim não tenho problemas porque eu não estou a agir no sentido de prejudicar este ou aquele. Para mim o importante mesmo é a TACV e quando digo isso quero dizer que o importante mesmo são os trabalhadores.Se a TACV não conseguir sair dessa situação o que é que fica em perigo? É o emprego das pessoas que estão na empresa e muitas pessoas deram a vida, anos e anos de trabalho, muitas dessas pessoas não sabem fazer outra coisa, senão o negócio de uma companhia aérea. Eu não digo que tenho razão a 100% mas acredito que as pessoas estão de acordo que as nossas medidas já deviam ter sido tomadas há já algum tempo.
RA - Acha então que a empresa está no bom caminho?
APN - Eu gostaria que fossemos mais eficientes que estivéssemos a voar mais. Acredito que já se fez um bocado. Eu não sou do tipo que assume para si todos os louros, há um trabalho sério e dedicado de muito boa gente dentro da empresa e é esse trabalho que devemos valorizar e é esse trabalho que devemos continuar.
RA - A empresa está em dificuldades financeiras graves. Se o Estado não investir pensa abandonar a empresa pois de certeza não teria condições para fazer um trabalho satisfatório em prol da recuperação definitiva da empresa?
APN - Eu não creio que o Estado não invista nos TACV. Provavelmente no imediato o Estado não esteja em condições de acudir a níveis que são as necessidades da companhia. Mas eu não queria especular sobre isso, as discussões estão em curso e estou convencido que o Estado acabará por assumir as suas responsabilidades porque também as tem nesse processo de recuperação de uma companhia que é essencial para o País e que é factor de auto estima para muitos cabo-verdianos que residem no exterior.A TACV é um valor que nós não podemos ignorar e nós temos que defender por isso eu não creio que o Estado nos volte as costas. Aliás há declarações de membros do governo, a começar pelo primeiro ministro, dizendo que a TACV é para ser defendida, é para ser valorizada e para ser reestruturada e para ser recuperada.
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